09 de julho de 2026
Nacional

Queda nas vendas transforma traficante em ladrão

Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Rio - A queda acentuada dos rendimentos do tráfico de drogas no varejo do Rio tem contribuído para que jovens deixem a atividade. Mas muitos não largam o crime e passam a praticar assaltos, como os que têm afetado a zona sul.

Essa é uma das conclusões da pesquisa “Caminhada de Crianças, Adolescentes e Jovens no Tráfico de Drogas no Rio de Janeiro”, divulgada ontem pelo Observatório de Favelas, sediado no Complexo da Maré (zona norte).

Com a ajuda de dez pessoas que faziam o elo entre entrevistadores e entrevistados, foram ouvidas 230 pessoas de 34 comunidades, de 11 a 24 anos, em 2004. Parte delas foi acompanhada até maio passado. Se na pesquisa anterior, de 2001, um vapor (vendedor de drogas na favela) ganhava até mais de dez salários mínimos, agora a maioria recebe entre um (R$ 350,00) e três salários. A concorrência da cocaína com drogas sintéticas, como o ecstasy, e os conflitos que assustam usuários estão entre os motivos da queda das vendas.

“Os chamados “bonde do 155' (artigo do Código Penal para furto) e “bonde do 157' (roubo) tinham menos status que os rapazes do tráfico, mas hoje muitos adolescentes preferem ser “trabalhadores autônomos’, como eles dizem, para não ter patrão e ganhar mais”, diz o geógrafo Jailson de Souza e Silva, coordenador do Observatório. Com as mortes ou saídas dos mais velhos - que também se desencantam ao trabalhar mais de dez horas por dia, praticamente sem folga - é cada vez mais baixa a idade com que se entra e se ascende no tráfico. A faixa etária mais declarada (57,4%) foi entre 13 e 15 anos. E há quem já seja gerente de boca de fumo nessa idade.

Agressões policiais

Os pesquisadores acompanharam 152 dos entrevistados entre junho e outubro de 2004. Nesse período, 30 (19,7%) deixaram o tráfico. Dos 230, quase 40% relataram já ter se afastado em algum momento da atividade. Para Jailson, os dados mostram que, havendo caminhos, muitos deixarão o tráfico. “A maioria da sociedade não oferece alternativas a um jovem que já tenha passado pelo sistema (penitenciário ou “socioeducativo”), ainda mais se for negro”, diz ele.

A evasão do comércio de drogas também está ligada às ações policiais. Dos entrevistados, 73% disseram ter sofrido agressões e 54,3%, extorsão. Dos 53% apreendidos (menores) ou detidos (maiores), pouco mais da metade foi para instituições ou prisões. “A maioria é executada”, diz Jailson. Dos 45 mortos, 29 foram atingidos por policiais.

Em alguns casos, os PMs estavam no Caveirão, carro blindado usado em favelas _prática que o governador eleito Sérgio Cabral prometeu suspender. Jailson propõe o conceito de “grupos criminosos armados” para substituir “facções”, lembrando que cresce o número de comunidades dominadas por milícias. Elas não vendem drogas, mas segurança privada, transporte alternativo, “gato” de TV a cabo e gás. “As milícias estão na zona oeste, norte e vão chegar à sul, porque as pessoas continuam defendendo mais violência para enfrentar o problema”, diz.