A Fonte da Vida” (“The Fountain”), do diretor norte-americano Darren Aronofsky (“Pi”, “Requiem para um Sonho”) e que estréia hoje no Cine’n’Fun, levou cinco anos para sair do papel. Quando o astro Brad Pitt abandonou as filmagens alegando diferenças criativas com o cineasta – e foi fazer a bomba “Tróia” – Cate Blanchett também saiu e o orçamento de US$ 75 milhões evaporou.
Em entrevistas à imprensa internacional, Aronofsky se disse perdido por alguns meses, assombrado por pesadelos sobre a história. E só sossegou ao lembrar-se que é filho do cinema independente – “Pi”, de 1998, foi feito com dinheiro de sua família – e que poderia transformar a fantasia recheada de efeitos especiais em um filme de sua alçada, justamente para confirmar que o orçamento de US$ 35 milhões seria mais do que cabível para as cenas essenciais da trama.
O resultado é uma dissertação do diretor, em um relato circular e poético, sobre a aceitação da morte como evolução natural da vida. Mais do que ficção científica, o longa é uma fantasia romântica, em que os temas sombrios, presentes em seus outros filmes, abrem espaço para algo mais próximo de um final feliz com o conceito de eternidade.
Para o roteiro, escrito com Ari Handel, Aronofsky baseou-se em mitos bíblicos e lendas das tribos pré-colombianas da América Central que remetem à origem da vida. Sua intenção é provocar a necessidade de reflexão ao final da sessão, com a narrativa complexa mas nada difícil de entender.
A história se desenvolve em três tempos e Hugh Jackman e Rachel Weisz desdobram-se em diversos personagens. Ele é simultaneamente Tomas, Tommy e Tom Creo. Ela é Isabel e Izzy. Vivem histórias que atravessam o tempo, localizadas a cada 500 anos, em média. Na mais antiga, no século 16, o guerreiro Tomas vai às selvas da América Central em busca do elixir da vida para salvar a rainha da Espanha, Isabel.
Na atualidade, o cientista Tommy faz pesquisas com macacos, usando amostras de uma árvore singular das selvas da América do Sul, na tentativa de salvar sua mulher, Izzi, morrendo com um tumor cerebral. Enquanto ele se dedica totalmente à pesquisa, a esposa escreve sobre um conquistador que viaja para o Novo Mundo em busca da Árvore da Vida. E no século 26, Tom Creo descobre que a sabedoria diante da morte não está em tentar driblá-la, mas no que se adquiriu vivendo.
Algumas peças da trama se encaixam até o final. Outras ficam proposital e inteligentemente suspensas, para caber ao espectador tentar decifrá-las, seja através de suas crenças ou dos detalhes – e eles estão lá - que conseguiu captar na sessão. O que não há é uma solução definitiva, mas um tema conceitualmente denso e ao mesmo tempo rico emocionalmente.
Com o orçamento reduzido, Aronofsky optou por economizar nos efeitos digitais e os trocou por soluções quase artesanais, filmadas como experiências químicas em laboratório, talvez até com mais charme para a textura das imagens. Os cortes e passagens de cenas são mais leves do que nos outros longas do diretor.
O filme é um achado ainda pela atuação do “Wolverine” Hugh Jackman, que revela um carisma ainda desconhecido do grande público. Tendo provado que sabe cantar e dançar (na Broadway no ano passado), ele aqui surpreende com uma interpretação emocional e devastadora, em gestos e olhares que mostram a essência dos personagens que interpreta ao longo da produção, de tocante a lunático. E Rachel Weisz não perde pontos, com complexidade, medo e aceitação, no pouco tempo em que aparece na tela.
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Mais Hugh Jackman
O astro de ‘X-Men’ mostra seu talento e carisma ao público em outros dois lançamentos nos cinemas neste final de semana: o suspense ‘O Grande Truque’, em que contracena com o ‘Batman’ Christian Bale, e a animação musical ‘Happy Feet – O Pingüim’, no qual dubla o pai do protagonista, interpretado por Elijah Wood na versão original.