Uma platéia pequena formada principalmente por universitários de artes cênicas tiveram a oportunidade inédita de debater idéias e projetos das principais entidades que atuam com teatro no Município. Na mesa, representantes da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), Sociedade Amigos da Cultura (SAC), Associação de Teatro de Bauru e Região (ATB), Câmara Setorial Nacional de Teatro e Delegacia Regional de Cultura. O encontro ocorreu na noite de anteontem na Universidade do Sagrado Coração (USC) durante a 4.ª Semana Cultural, que segue até hoje.
Compuseram a mesa o secretário municipal de Cultura, José Augusto Ribeiro Vinagre; o presidente da SAC, José Ramos; o presidente da ATB, André Zambello; o representante do Interior do Estado de São Paulo na Câmara Setorial Nacional de Teatro, Márcio Pimentel, e a delegada regional de Cultura, Suad Haddad Barrach. As discussões foram moderadas pelo jornalista e ator Juliano Dip.
Entre os assuntos debatidos, a falta de espaço para a divulgação dos artistas locais e a não valorização da Cultura por todas as esferas do governo foram os temas mais recorrentes. As cidades do Interior do Estado, segundo Barrach, recebem cerca de 10% do orçamento estadual destinado à Cultura, sendo que muitas delas não possuem sequer uma secretaria específica para a área.
Em Bauru, a situação é um pouco diferente. A cidade possui uma Secretaria Municipal de Cultura, mas enfrenta sérios problemas orçamentários. Apenas cerca de 1,3% do Orçamento Municipal é destinado à pasta. A quantia foi descrita por Pimentel como “uma piada”.
Para ele, a Cultura só ganhará reconhecimento se houver uma maior articulação da sociedade civil com o poder público para traçar políticas culturais de forma participativa. Ele citou como exemplo o trabalho das Câmaras Setoriais do Sistema Nacional de Cultura, do governo federal. “Nunca escutaram a nossa voz como agora. Nunca se falou em descentralização das verbas para projetos culturais como agora. A sociedade civil está junto com o governo formulando as bases”, colocou.
Na esfera municipal, foram apontados avanços semelhantes como a formação da SAC, a primeira entidade artística juridicamente instituída há cerca de dez anos em Bauru, e a ATB que existe há quase dois anos. “Queremos unir os artistas para exigir do Poder Público nosso direito de ter um espaço para trabalhar. Afinal, os artistas também precisam comer”, desabafou o presidente da ATB.
‘Tostines’
Não há público, porque não há apresentações; ou não há apresentações porque não há público? As inúmeras causas levantadas anteontem levam ao mesmo ponto: não há uma coisa, nem outra. De um lado a classe artística cobra espaços, como uma maior utilização do Teatro Municipal; do outro representantes se defendem alegando pauta cheia e apontando outros caminhos.
“Nós recebemos uma média de 15 pedidos por semana para o uso do Teatro. Infelizmente, não dá para atender todo mundo. Precisamos criar espaços alternativos para as apresentações”, sugeriu Vinagre. De acordo com ele, desta forma seria possível a promoção de temporadas - inviável no Municipal – e, conseqüentemente, uma divulgação maior do trabalhos dos artistas.
Para o problema da falta de público, todos foram unânimes ao afirmar a necessidade de formação de público. “O teatro precisa se tornar um hábito na vida das pessoas”, colocou Zambello. Nesse sentido, Pimentel exaltou o projeto municipal “A Escola Vai ao Teatro”, que leva crianças da rede municipal de ensino ao teatro, mas criticou o baixo número de companhias teatrais contempladas no projeto. Sobre isso, Vinagre foi enfático. “Para resolver este problema, conversem com a Secretaria da Educação. Eles têm dinheiro, nós não”, afirmou.
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Balanço
Para a maioria do público presente - cerca de 40 pessoas - o evento foi esclarecedor no sentido de apresentar à população, principalmente aos estudantes, um panorama do mercado cultural na cidade. “Acho interessante colocar a população a par de como está a cultura em Bauru”, afirmou o estudante do primeiro ano de artes cênicas da USC Del Luis Silva.
Juliana Campoy, também estudante do primeiro ano de artes cênicas da USC, acredita que um primeiro passo foi dado. “Houve uma democratização das informações. Desta forma, o controle da cultura não ficará restrito nas mãos de alguns e também teremos argumentos para cobrar ações dos representantes”, disse.
Com o encontro, a estudante do primeiro ano de artes cênicas Luana Carvalho esclareceu algumas dúvidas sobre as políticas municipais para a cultura, mas também fez suas críticas. “Algumas propostas sugeridas para melhorar a condição do artista são totalmente fora da realidade”, opinou.
Um novo encontro deve reunir estudantes, profissionais e representantes da área de Bauru e região durante 1.º Fórum de Teatro no Interior do Estado, que será promovido nos dias 1 e 2 de dezembro em Bauru. O evento é uma realização da Cooperativa Paulista de Teatro e terá como objetivo reunir profissionais e interessados na área para discutir a questão profissional no Interior, políticas culturais e fomento.