10 de julho de 2026
Internacional

Ex-espião envenenado morre e deixa carta acusando Putin, dizem amigos

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Londres - A possibilidade de a Rússia estar por trás do envenenamento de seu ex-espião Alexander Litvinenko eclipsou ontem em Helsinque a reunião do presidente Vladimir Putin com governantes da União Européia (UE) para tentar desbloquear os impasses no comércio bilateral.

Litvinenko morreu na noite de anteontem, em Londres, e uma última mensagem, lida por amigos e atribuída a ele, acusa o presidente russo de ter ordenado seu assassinato. Putin qualificou a acusação de “provocação política”.

Autoridades britânicas revelaram ontem que o envenenamento se deu por uma substância bastante radioativa, o polônio-210, que é altamente letal e de difícil detecção no organismo das vítimas. Litvinenko supostamente investigava a morte a tiros, em Moscou, em 7 de outubro, da jornalista russa Anna Politkovskaya, que denunciara supostas atrocidades do Kremlin na Chechênia.

O ex-espião já havia previamente acusado o FSB - sucessor da KGB - de tentar matar o magnata russo Boris Berezovski, exilado no Reino Unido e de quem era amigo. Berezovski, que ficou rico com as privatizações da era Yeltsin (1991-1999), é acusado de lavagem de dinheiro na Rússia.

O envenenamento provavelmente ocorreu em 1 de novembro, quando Litvinenko almoçou num restaurante japonês, em Londres. A polícia revelou ontem que no local foi detectada radioatividade. Naquele mesmo dia, sentindo fortes dores, ele foi hospitalizado.

Transferido no dia 17 para outro hospital, foi levado dois dias depois para a UTI, onde sofreu um ataque cardíaco. Ainda consciente, teria ditado a longa declaração em que agradece os médicos que o tratavam e responsabiliza Putin.

A suspeita do envolvimento de Moscou na morte de um dissidente - Litvinenko fugiu há seis anos para o Ocidente e já era cidadão britânico- levou a chancelaria britânica a informar os jornalistas que interpelou a embaixada russa e a advertiu de que se trata de “um assunto sério”, segundo porta-voz do Foreign Office.

Putin disse em Helsinque, Capital da Finlândia, que as informações disponíveis no hospital em que o ex-espião esteve internado não comprovam tratar-se de “uma morte violenta”. Disse ter enviado condolências aos familiares de Litvinenko e refutou “especulações” sobre o caso. Qualificou de “provocação” a divulgação de uma declaração do dissidente. “É lamentável que esse trágico episódio esteja sendo utilizado como provocação política.”

Colocou à disposição de Londres especialistas e promotores russos e insinuou que “nossos colegas britânicos” têm parte da responsabilidade, por não protegerem cidadãos russos que vivam em seu território.

O primeiro-ministro finlandês, Matti Vanhanen, que ocupa a presidência rotativa da UE, disse que os governantes presentes não questionaram Putin sobre o assunto “porque nenhum deles dispõe de informações suficientes”. Também participou do encontro o presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso.

A Europa é altamente dependente do gás e do petróleo russos. Putin rejeitou as pressões para privatizar ou desmembrar a Gazprom, estatal do setor, com o monopólio da produção e exportação de energia. Um eventual acordo com a Rússia seria vetado por um dos 25 países da UE, a Polônia, em represália ao embargo russo à importação de carne polonesa.