09 de julho de 2026
Nacional

Milton Nascimento caminha de volta a Três Pontas

Por Luiz Fernando Vianna | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Milton Nascimento anda vivendo um paradoxo: faz há mais de três anos a maior turnê de sua carreira, já tendo cantado em lugares como Hong Kong e Finlândia, e diz nunca ter ido tanto a Três Pontas desde que deixou, nos anos 60, a pequena cidade mineira onde cresceu. Os pólos do paradoxo se unem em dois lançamentos.

No DVD “Pietà”, ele registra o show homônimo e apresenta, nos extras, os Meninos de Três Pontas, jovens que descobriu no ano passado e com quem quer fazer seu próximo disco. Na biografia “Travessia - A Vida de Milton Nascimento”, a jornalista trespontana Maria Dolores relata em detalhes a infância e a adolescência do cantor e acompanha os caminhos que o fizeram se tornar um nome internacional. “Todo mundo diz que eu não falo nada, mas a Maria conseguiu extrair. Quem é honesto recebe sempre coisas boas”, diz Milton, 64 anos, cuja família é próxima da de Dolores.

Biógrafa e biografado garantem que nada foi censurado, ainda que ele tenha feito uma revisão final nos originais. “Achei muito boa a história da infância, entrevistei o pai do Milton e resolvi contar essa parte da vida dele, que pouca gente conhece”, diz Dolores. Milton nasceu no Rio, filho da doméstica Maria do Carmo. O pai não assumiu a função e a mãe morreu de tuberculose dois anos depois do parto. O menino, que chegou a ser levado para a casa da avó materna em Juiz de Fora, acabou criado em Três Pontas por Lília, da família para a qual Maria do Carmo trabalhava, e seu marido, Josino Campos.

Só aos 45 anos o cantor legalizou sua adoção, mas foi criado como filho pelo casal, que lutou contra o preconceito racial para que Milton tivesse uma ótima educação. Foi Lília - a homenageada de “Pietà” - quem inventou o apelido Bituca, por causa das caras feias que o menino fazia. Josino está vivo. “Meu pai estava reclamando que eu não ia mais a Três Pontas depois que minha mãe morreu. Passei a ir sempre. Mas fiquei assustado quando vi a cidade no mapa do livro ‘Música do Brasil’ (de Chris McGowan e Ricardo Pessanha). Pensei: depois de mim e do Wagner (Tiso), que músico de peso há em Três Pontas?”, conta Milton.

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Pablo e outros filhos

Foi com esse pensamento e a ajuda de um primo de Tiso que ele começou a conhecer jovens músicos da cidade. Acabou reunindo-os sob o título Meninos de Três Pontas, que cantam com ele e Lenine em “Paciência” - parte dos extras de “Pietà” - e deverão gravar um disco com o padrinho. “As pessoas falam: ‘Ah, seu filho...’. Em vez de um filho, tenho milhares que vou semeando por aí. Sempre que alguma coisa me toca, quero trazer para perto. É assim na música, na vida, no palco”, diz Milton.

Seu filho Pablo nasceu em 1972, fruto do relacionamento com Káritas, socialite paulistana. Milton conta no livro que as ameaças do regime militar o obrigaram, por segurança, a se afastar do filho, com quem não retomou o contato. A paixão platônica por Elis Regina, o alcoolismo nos anos 70, as agruras financeiras, a proximidade da morte por causa da diabetes e o desejo de deixar a carreira nos anos 90 são outros temas do livro.

Para 2007, além de um trabalho com o coreógrafo norte-americano David Parsons, Milton espera melhoras políticas. “A reeleição é uma chance que o Lula tem de tirar essa mancha que está sobre todos nós e fazer um negócio que o povo brasileiro mereça. Tenho esperança, mas por enquanto é só”, afirma.