Jece Valadão, o eterno cafajeste brasileiro, imortalizado ao interpretar dezenas de vilões e machões, morreu ontem, aos 76 anos, no hospital Panamericano, em São Paulo, em seu sexto dia de internação na unidade de terapia intensiva (UTI). O ator deu entrada no Hospital Modelo com insuficiência respiratória aguda na terça-feira passada e foi transferido para o Panamericano no mesmo dia.
Segundo boletim médico divulgado ontem à tarde, “o paciente apresentou uma piora do quadro geral, com instabilidade hemodinâmica e comprometimento da função renal. Iniciou processo de hemodiálise e reintrodução de drogas vasoativas para manutenção da pressão arterial”. A nota informa ainda que, após alteração do ritmo cardíaco (arritmia cardíaca), foi realizada tentativa de reversão do quadro, sem sucesso. O óbito, diz a nota, foi declarado às 17h20.
Natural de Cachoeiro do Itapemirim (ES), Jece Valadão, conhecido como o maior cafajeste do cinema nacional por seus papéis, participou de mais de 100 produções (filmes, novelas e séries), seja como ator, diretor ou autor. Entre os filmes mais recentes estão “Garrincha - Estrela Solitária” (2003), “Em Nome de Jesus” (2003) e “O Cangaceiro” (1997). Na TV, fez participações especiais nos seriados “Sob Nova Direção” e “A Diarista”, na novela “Bang Bang” e na série “Filhos do Carnaval”, transmitida pelo canal HBO.
Jece Valadão estreou no cinema em 1949, com os filmes “Carnaval no Fogo” e “Também Somos Irmãos”. Entre os filmes clássicos de que participou, estão “Os Cafajestes” (Ruy Guerra, 1962), “Idade da Terra” (Gláuber Rocha, 1980), “Rio 40 graus” (Nelson Pereira dos Santos, 1955) e “O Boca de Ouro” (Nelson Pereira dos Santos, 1962). Por “Rio 40 Graus”, Valadão ganhou um prêmio de melhor ator por seu papel de malandro. Curiosamente, recusaram-se a lhe dar o prêmio, achando que era mesmo um marginal do morro - ele só recebeu depois de provar o contrário.
Seu último trabalho foi o filme “Encarnação do Demônio”, do diretor José Mojica Marins, o Zé do Caixão. O retorno do Maldito às telas começou a ser gravado no mês passado. O ator interpretaria o Coronel, que perseguiria Zé do Caixão. “É tudo novo. O terror está a um passo do ridículo. Não é tão fácil e óbvio quanto pode parecer”, comentou antes das gravações. O filme tinha previsão de estréia para junho de 2007.
Valadão teve um filho com atriz Vera Gimenez, o também ator Marco Antonio Gimenez, intérprete de Urubu de “Malhação”, da Globo. O ator, que passou por seis casamentos, teve outros oito filhos, quatro reconhecidos e quatro assumidos por outros homens. Atualmente, Jece Valadão era casado com a dona-de-casa Vera Lúcia Valadão, 45.
Religião
Jece Valadão é conhecido nacionalmente como um dos maiores cafajestes do mundo artístico - seja por seus personagens, seja por sua vida pessoal. Em 2001, porém, o ator gravou um documentário contando como a religião o transformou. Em “O Evangelho Segundo Jece Valadão”, ele diz ter se arrependido por ter sido um pai ausente e conta como a religião o salvou - ele se tornou evangélico há dez anos.
“O Jece Valadão morreu dez anos atrás e eu renasci espiritualmente”, definiu ele certa vez. O documentário traz o próprio Valadão narrando os fatos que ocorreram em sua infância na pequena cidade de Cachoeiro de Itapemirim e contando particularidades de seus casamentos, quando ele já morava e filmava na cidade do Rio de Janeiro.
“Estava separado da Vera Gimenez e morando em São Paulo, porque não suportava ver a cara dela. Tinha ciúmes. Além disso, ela me telefonava todo mês pra cobrar a pensão do nosso filho. Isso me deixava nervoso. Até que um dia ela me ligou com uma voz suave, contando que foi a um jantar numa associação evangélica e ouviu o depoimento de uma mulher. Ficou tão entusiasmada que pediu pra eu ligar para o pastor que estava lá. De tanto ela insistir, acabei ligando. O pastor começou a orar por mim no telefone e eu comecei a chorar. No dia seguinte, eu estava sendo batizado”, contou Jece.
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Frases
“Nunca fiz pornochanchada, que é o sexo sem razão de ser. Fiz comédias urbanas eróticas baseadas na literatura.”
“Sinto um arrependimento por ter sido um pai ausente. Uma mágoa pelo fato de meus filhos não terem por mim o amor que eu tinha pelo meu pai. Meu pai foi a pessoa que mais amei no mundo. Eu esperava meu pai voltar do trabalho para tomar banho com ele no rio.”
“Se eu já fiz algum bicheiro (no cinema)? Acho que eu só fiz bicheiro em toda a minha vida.”
“A única vez que fiz mocinho me arrependi amargamente. Todos os personagens que fiz não são mocinhos nem galãs.”