A administração municipal de Bauru demorou 23 meses para dar destinação a equipamentos novos, pagos com o dinheiro público e que ficaram mantidos na caixa na Secretaria das Administrações Regionais (Sear) neste período. O pior é que os itens - compressores de ar e lavadoras de alta pressão - foram adquiridos absurdamente no distante exercício de 2002, durante o governo anterior, de Nilson Costa (PPS), período em que também não foram utilizados.
Este é um pequeno exemplo e o retrato do abandono, desleixo, desorganização e ausência mínima de gestão a que está submetida a já comprometida estrutura do poder público municipal, onde sucata se mistura a bens aproveitáveis, mas abandonados à espera de reparos, expostos a furtos e desvios de toda sorte e sendo utilizados sob a forma de conveniências pessoais, onde, na melhor das hipóteses, se retira uma peça de um equipamento para “salvar” outro.
Mas o desleixo no caso dos equipamentos novos encaixotados vai além da insustentável demonstração de ineficiência. O secretário em gozo de férias da Sear, Nelson Fio, já havia sido cobrado do abandono desses equipamentos no final de maio deste ano, depois que o vereador Futaro Sato (PDT) criticou a permanência desses itens durante sessão da Câmara Municipal. E nem assim a administração da pasta agiu para reparar o absurdo já instalado há tempos.
Ou seja, enquanto assistia a seus principais assessores de Secretaria realizando despesas de serviços e compras sem critérios, sem identificação e controle adequados em notas fiscais e sem zelo na escolha de orçamentos, Nelson Fio ainda permitiu, ou permaneceu em extenso estado de desídia, que compressores e lavadores de alta pressão, comprados em 2002, continuassem parados.
Enquanto reclama da falta de recursos para investir em setores prioritários e mesmo na renovação da estrutura operacional da prefeitura, o governo conseguiu a proeza de deixar os equipamentos que já estavam sob denúncia ainda parados por mais seis meses, ou mais de 170 dias.
A tentativa em vão de justificar o caso, dada pelo secretário em 30 de maio deste ano ao JC, foi tão patética quanto o descaso: “A Sear estava realizando estudos para saber se valia a pena fazer a instalação elétrica na voltagem 220”. Medida, é óbvio, de alta “complexidade”.
Desleixo sem fim
O alegado “estudo” foi iniciado em 2005 e já não tinha sido concluído até 30 de maio deste ano, tal sua "complexidade". Mas tem mais. O pior é que apenas ontem, quase 23 meses depois, dois desses compressores foram destinados para o Departamento de Apoio Operacional (DAO) da Secretaria Municipal de Obras. O termo de garantiu expirou há muito tempo e agora não se sabe sequer se eles vão funcionar de forma adequada, dado o tempo de abandono nos caixotes de madeira.
Detalhe: o JC verificou, no local, que o setor de lavagem e lubrificação da frota municipal, assim como a área de apoio operacional, trabalham há vários meses em situação precária. Uma das carências, constatadas nas próprias instalações, é justamente o estado precário dos compressores utilizados.
Nelson Fio arriscou, em maio passado, que os equipamentos poderiam ser vendidos, uma vez que a Sear não pretendia utilizá-los. Ontem, funcionários do Departamento Operacional de Obras agradeceram o recebimento dos caixotes. Agora, o superteste de abandono dos compressores e lavadores de alta pressão será, enfim, desvendado.