Apesar da descoberta precoce do vírus ser benéfica à saúde do portador, dificilmente uma pessoa aparentemente saudável se preocupa em fazer o teste de HIV. Em Bauru, 56% dos soropositivos só fizeram o exame após indicação médica, segundo pesquisa realizada com 50 freqüentadores de duas entidades da cidade, a Associação de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab) e a Seção de Moléstias Infecciosas (SMI).
Outro fato alarmante é que 72% dos infectados confessam que adquiriram a doença consciente, tanto dos comportamentos considerados de risco quanto dos métodos preventivos. A informação é cada vez mais difundida pela mídia, no entanto, parece não fazer efeito, principalmente para os jovens, que ainda acham que a doença está longe da sua realidade.
“Conversei com universitários e portadores da doença. A maioria disse nunca ter feito o exame por medo, conscientes de terem tido um comportamento de risco. Constatei que esse fato independe de classe social e que a informação está ao alcance da maioria”, afirma Mariana Cesário Asseli, que realizou a pesquisa nos centros de apoio da cidade e a desdobrou num trabalho de conclusão de curso.
Segundo o médico Marcelo Kanamura, do SMI, realmente existem muitas pessoas que são portadoras do vírus, mas não fazem o teste até que a doença se manifeste. “Geralmente, eles descobrem por acaso, fazendo exame para verificar outra patologia. Já tive até pacientes que se recusaram a fazer o teste mesmo sabendo que a parceira estava infectada. Mas não é porque a doença não se manifestou que você não está doente”, revela.
O diagnóstico precoce é importantíssimo, não só para o paciente. “Sabendo rápido, a corrente é quebrada, ou seja, o infectado não vai mais transmitir a doença para outros, sem saber. Além disso, o quanto antes o diagnóstico for feito, mais cedo ele receberá o coquetel e conseqüentemente terá mais chance de inibir o desenvolvimento da doença”, explica Kanamura.
Para Kanamura, não existem motivos aparentes para a pessoa se recusar a fazer o teste de aids, já que o exame é sigiloso e feito gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “A coleta demora poucos segundos e o resultado sai em no máximo 20 dias”, afirma.
De acordo com Programa DST/Aids de Bauru, a proporção é de três homens infectados para cada mulher, ou seja, 74% dos portadores do vírus são do sexo masculino enquanto 26% do sexo feminino. Predominantemente, os doentes estão na faixa etária entre 29 e 49 anos.
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Exemplo vivo
Uma portadora do HIV, que preferiu manter o nome em sigilo, serve como exemplo vivo das constatações citadas no texto ao lado. “Eu e meu marido sabemos que temos o vírus há 10 anos, mas ele ainda não se manifestou. Descobrimos por acaso, num exame de rotina, por outro motivo. Não sabemos como contraímos, mas há 13 anos atrás, quando estávamos com 22 anos, não tomávamos tanto cuidado. Você sabe do perigo, mas nunca acredita que pode acontecer com você”, conta.
A mulher acredita que a informação está ao alcance das pessoas, mas tenta explicar o porquê muitas vezes não são tomadas medidas preventivas na juventude. “Quando você é adolescente, pensa que é imortal. Se sente o escolhido, aquele que pode abraçar o mundo. Os medos e preocupações só aparecem com a idade”, completa
Hoje, ela e o marido levam uma vida normal, no entanto, preferiram não confessar a familiares e amigos que são portadores do vírus. “É muito difícil revelar, ainda existe muita ignorância em relação à doença em si. Só contamos a alguns amigos. Prefiro poupar meus pais, não causar pânico e sofrimento desnecessário em vão”, afirma.