Amã - O primeiro-ministro do Iraque, Nuri Al Maliki, disse ontem que as forças locais poderão substituir os EUA no controle da segurança até junho de 2007, o que permitiria o início da desocupação norte-americana. “Não posso responder em nome do governo dos EUA, mas posso lhes dizer que do nosso lado as forças estarão prontas até junho de 2007”, afirmou Maliki à rede norte-americana ABC após reunião na Jordânia com o presidente George W. Bush, que manifestou apoio ao premiê, mas negou ter pressa em retirar seus soldados.
“No começo do próximo ano, vamos ampliar o treinamento das nossas forças. Quando elas atingirem um nível aceitável, poderemos falar em transferir o poder das forças multinacionais para as forças do Iraque”, disse Maliki. “Posso dizer que as forças iraquianas estão prontas, totalmente prontas para receber este comando e comandar suas próprias forças, e posso lhes dizer que até junho que vem nossas forças estarão prontas.”
Em entrevista coletiva ao lado de Maliki, Bush disse que o iraquiano é “o cara certo” para governar o país. “Parte das frustrações do primeiro-ministro é que ele não tem as ferramentas necessárias para tomar conta daqueles que violam a lei”, disse Bush, numa declaração que contrasta com as recentes críticas do governo norte-americano à situação no Iraque.
“É do nosso interesse ajudar que a liberdade prevaleça no Oriente Médio, a começar pelo Iraque. E por isso esse negócio de ‘saída graciosa’ simplesmente não tem realismo nenhum”, afirmou Bush, que nos próximos dias deve receber sugestões estratégicas de uma comissão bipartidária norte-americana.
Os comandantes dos EUA têm sérias preocupações com a eficácia da polícia e das forças iraquianas, em parte devido a suas divisões entre xiitas e sunitas. A minoria sunita considera que algumas unidades policiais e militares agem como milícias xiitas.
Uma fonte ligada às deliberações do Grupo de Estudos do Iraque, que fará as recomendações a Bush no dia 6, disse que uma das hipóteses é que as forças dos EUA se recolham para quartéis no Iraque e na região ao longo do próximo ano. “Basicamente é um re-deslocamento”.
De volta a Bagdá, Maliki salientou que a renovação, nesta semana, do mandato da ONU que permite a presença militar estrangeira no Iraque até o final de 2007 introduziu a meta de transferir o controle total da segurança ao governo iraquiano. Bush declarou apoio a Maliki depois de autoridades dos EUA insistirem que o líder iraquiano não ficou ofendido com um recente memorando crítico da Casa Branca e que ele não havia esnobado o presidente norte-americano - uma reunião entre ambos, na véspera, foi cancelada.
Retirada descartada
Bush descartou a retirada das tropas americanas do Iraque enquanto reafirmou seu apoio ao líder xiita. Anteontem, um memorando elaborado pelo conselheiro de segurança dos EUA, Stephen Hadley, questionou habilidade de Al Maliki para conter a violência sectária no país.
Bush tentou esvaziar a força da crescente pressão pela retira dos mais de 140 mil soldados americanos do Iraque, reenergizada pela vitória dos democratas nas eleições legislativas americanas deste mês. Apesar da especulação, o presidente reafirmou sua intenção de permanecer no Iraque até que “a missão esteja concluída”. “Esse negócio de retirada graciosa simplesmente não é realista”, afirmou ontem em Amã.
As declarações do presidente chegaram após se tornar público que o Grupo de Estudos para o Iraque recomendará que os militares dos EUA saiam da linha de frente de combate e passem a colaborar dando apoio para tropas iraquianas. O grupo deverá também recomendar que os EUA aceitem negociar a inclusão do Irã e da Síria no esforço de estabilização do Iraque.
Até agora, Bush rejeitou negociar incondicionalmente com os dois países, que acusa de fomentarem a violência nos países vizinhos. Por sua vez, Al Maliki disse que quer manter boas relações com seus vizinhos, mas que teme a interferência estrangeira no Iraque. “O Iraque é para os iraquianos. Suas fronteiras são defendidas e não permitiremos que sejam violadas, ou que interfiram em nossos assuntos domésticos”, disse o líder.
Mesmo sendo conhecido por agir sem aviso prévio, como no caso da renúncia do secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, os comentários de Bush depois da reunião em Amã parecem fixar alguns pontos sobre os quais ele não aceitará ser pressionado. Esse pontos incluem a recusa em iniciar uma retirada significativa de tropas, em dividir o país em regiões autônomas e em negociar diretamente com a Síria e o Irã para incluir os países vizinhos no esforço de estabilização do Iraque.
Partilha do Iraque
Nos EUA, aumentam os debates sobre a necessidade de uma partilha do Iraque, em parte para justificar uma saída dos americanos da guerra. As vozes mais proeminentes que defendem uma separação do Iraque são o senador democrata Joe Biden e o presidente emérito do influente Council on Foreign Relations, Leslie Gelb. Eles atuam juntos e lançaram sua proposta para que o Iraque seja dividido em três regiões autônomas (xiita, sunita e curda), cada uma responsável por suas leis domésticas e segurança interna.
De acordo com este plano, o governo central zelaria pela defesa das fronteiras, relações internacionais e a alocação das divisas de petróleo (carente na região sunita).