Quando era apenas um estudante em Santa Cruz do Rio Pardo (a 96 quilômetros ao sul de Bauru), o hoje tenente-coronel Pedro Batista Lamoso, que assumiu recentemente o comando do 4º Batalhão da PM do Interior (BPMI), queria ser engenheiro. Até foi aprovado no vestibular da Fuvest, mas acabou descobrindo a academia da Polícia Militar. Formou-se oficial e começou a trabalhar como tenente da PM ainda na época da ditadura. Depois de uma breve passagem pela Capital e na vizinha Promissão, ele se fixou em Bauru.
Por conta da profissão, quase não é visto em momentos de lazer em Bauru. Por isso pouca gente sabe que ele é santista e que na época de estudante escreveu para o jornalzinho da escola. E para surpresa de muitos torcedores do Noroeste, o atual tenente-coronel conta que é um grande talismã do time. Toda vez que Lamoso fazia o policiamento no estádio, o Norusca ganhava.
Zeloso com a família, Lamoso prefere não revelar o nome da esposa e filhos. Ele afirma que evita envolver a família no cotidiano estressante da Polícia Militar. Mas isso nem sempre é possível, como a vez que teve de deixar a festa de Réveillon de sua casa e passou a virada de ano em uma ocorrência.
Filho de um escrivão da Polícia Civil, Lamoso contou ao Jornal da Cidade sobre sua experiência na PM, sobre os projetos que espera desenvolver na cidade e relatou situações de forte emoção dos seus 28 anos de carreira policial, inclusive quando teve que relembrar a infância, quando nadava no rio Pardo, para se salvar em uma enchente na avenida Nações Unidas.
JC – Como era ser policial no período da ditadura?
Tenente-coronel Pedro Batista Lamoso - Peguei muito pouco desse período. Atuei na época do Franco Montoro, na época da mudança da Arena, do MDB, peguei a fase da abertura. Mas convivíamos com oficiais antigos, da época mais dura. Ainda peguei a época em que a PM era para proteger o Estado. Mas a mudança veio com a Constituição de 1988, com a polícia da dignidade humana, dos direitos humanos e cidadã. Houve uma mudança muito grande no País e a polícia teve que acompanhar. A partir de 1988 foi, paulatinamente, alterando até que houve uma grande mudança estrutural da polícia em 1993, com as novas diretrizes de Polícia Comunitária.
JC - Foi difícil acompanhar essas mudanças?
Lamoso - Não foi porque entrei muito jovem na polícia e peguei as funções de comando já na abertura, em 1983, então não tive dificuldades. Mas na época havia uma estética militar muito grande. O efetivo era mais aquartelado. Hoje é tudo voltado para o policiamento de rua. Como comecei a trabalhar na companhia, que era basicamente policiamento, não senti tanto essa dificuldade. Mas quem teve toda a vivência com o Exército, legislações de controles de armamentos, material bélico, tinha esse vínculo maior, até pela própria necessidade e tensão da época. Eu não tive muito essa dificuldade porque sempre tive esse espírito de trabalhar com a comunidade, muito ligado aos policiais que vêm do Interior, que convivem com a população, sempre conversando. Coisa de cidade pequena.
JC – Fale sobre uma ocorrência que chocou o senhor?
Lamoso - Foi na zona norte, no Parque Santa Edwirges. A mulher era casada e tinha um amante. Para se livrar do marido, eles criaram um fato. O amante matou a filha dela, enterrou num terreno e depois ela deu a queixa de que tinha sido o marido. Se ela largasse simplesmente o marido, o deixasse, poderia apanhar. Então, ela queria que o marido fosse preso. Quando encontramos o corpo dias depois, ficamos chocados. A menina foi morta a facadas, a mãe estava chorando e incriminando o marido. Ele foi preso e, depois de detido, conversando com ele, alguns fatos não batiam. Havia conflito nos depoimentos. Conversando isoladamente com a mulher, ela entrou em contradição. Falamos com os vizinhos e eles contaram com quem ela andava, descobrimos que tinha um amante. Prendemos ele e dissemos que tínhamos descoberto a farsa, mas sem ele saber. Perguntamos quem tinha cometido o crime. Ele disse que ela tinha feito ele matar a criança. Olha onde foi parar, a mãe mandar matar o filho, para incriminar o marido e ficar com o amante? Os valores são muito pequenos. É uma história trágica, mas presenciamos. Abrimos a cova e vimos a criança esfaqueada e as formigas em cima. E isso acontece no dia a dia do policial.
JC – Já passou por situações de risco de vida?
Lamoso - Em Bauru, em 1994, durante uma grande chuva na Nações Unidas. Onde hoje é uma concessionária, antes era um terreno murado. Estava com a viatura, fomos até o local com os bombeiros para tirar as pessoas de lá. Começamos a avisar as pessoas, pedir para tirarem os carros. Eu entrei no meio da avenida para amarrar uma Caravan que já estava sendo levada pela água. Pedi uma corda para o bombeiro e eles foram salvar algumas pessoas que estavam mais embaixo. Eu fiquei sozinho amarrando o veículo. Quando eu percebi, o volume de água estava bem alto. Eu fui para o meio do canteiro e fiquei segurando num poste de sinalização. E a água já estava batendo no peito. Os bombeiros e policiais estavam na margem querendo me salvar, tentando jogar uma corda, mas ela não chegava. Bombeiros vindo de dois, mas a correnteza os levava. Então eu tirei o cinto que estava na farda e amarrei-o no poste para ter apoio. Então veio uma crosta de asfalto levantada da avenida. Ela veio flutuando, bateu no poste, que quebrou. Eu tive que subir nessa parte do asfalto que deveria ter uns cinco metros quadrados. Eu fiquei ilhado, vendo os carros vindo, rodando, em minha direção. A sensação de estar ali sozinho, o pessoal dos bombeiros a uns 80 metros, desesperados para tentar socorrer, mas não conseguiam chegar onde eu estava. E eu estava vendo a hora de pular na água e ir nadando porque era o costume em Santa Cruz nadar em rio com correnteza.
JC – Mas e os aspectos positivos desses 28 anos de atuação na PM?
Lamoso - Teve um seqüestro há uns três anos. Começou como um roubo. Fomos atrás e tivemos a alegria de encontrar a pessoa viva. A melhor parte é comunicar a família que o parente está vivo, que está tudo ok. São momentos que a gente acaba com orgulho de ser policial. A maioria desses momentos bons foi quando estávamos juntos, acompanhando policiais no momento que eles tiveram sucesso.
JC - E a rotina na PM?
Lamoso - A partir de capitão, a gente tem uma responsabilidade maior. Por trás da gente tem um efetivo grande, que a gente é responsável como se fôssemos pais. Temos que saber de tudo o que acontece com eles, além de tomar conta dos crimes, da sociedade, da população e tentar baixar os índices criminais. Então, a responsabilidade é muito grande e a gente fica praticamente 24 horas ligado. Leva para casa o HT (rádio comunicador), dois celulares, alem do telefone de casa toda hora tocar. É lógico que não temos condição de sabermos tudo o tempo todo. Então temos uma equipe muito competente, que trabalha com a gente e traz informações. Eu gosto de saber de tudo, então a qualquer momento tem a equipe de prontidão. Peço para me informarem de madrugada, não tem horário.
JC – O senhor já teve que deixar a família esperando para atender algum chamado?
Lamoso - Já passei um Réveillon em ocorrência. Estava em casa com a festa pronta. Na época, era capitão e meu comandante de batalhão estava comigo. Me ligaram às 23h comunicando que havia um pai no Jardim Eldorado retendo a família com uma arma, dizendo que iria matar todos. Fomos para o local e minha família argumentou que lá já tinha um oficial, mas eu gosto estar à frente nessas ocorrências. Eu fui para lá, entrei na negociação e o horário correndo. A família me ligando, perguntando se não ia voltar para festa. Acabamos tendo sucesso: ele deixou a arma e acabou se entregando. E a gente via os fogos, os rojões, as pessoas comemorando, mas aquela família foi salva.
JC - E a sua família? Ela compreende?
Lamoso - Com o tempo ela foi se acostumando. Eu tenho dois filhos, um de 18 anos outro de 15 e sempre procurei levá-los desde criança ao quartel. Atualmente, os dois pretendem seguir carreira policial, mas eu nunca influenciei. Foi por conta própria. Mas desde crianças iam ao quartel, viam os cavalos, entravam nas viaturas. Eles sabem que não tem dia, nem hora.
JC – E a população, reconhece o senhor sem a farda?
Lamoso - É difícil ter uma vida social e ter uma função pública. Eu evito ter uma vida social, freqüentar outros locais, clubes, shopping, festas. É difícil me encontrarem nesses locais. Não porque não goste, mas é justamente para não ter influência. Acaba sendo uma vida bem familiar, com amigos, vizinhos e bastante discrição. A gente é muito cobrado por ser homem público porque exigimos uma conduta da sociedade e não podemos cometer erros, segundo a visão da população. Então, seríamos mal interpretados se tivermos em determinados locais, eventos e festas.
JC – O senhor costuma praticar algum esporte?
Lamoso - Muitos falam que não têm tempo. Mas o tempo a gente é quem faz. Só que chega a uma certa idade você tem que ter um controle maior com os esportes. Eu gostava de futebol, mas já não pratico há muito tempo. Então hoje são mais caminhadas, justamente para manter o condicionamento físico.
JC – Torce por algum time?
Lamoso - Pelo Santos. Naquela época do auge dos Santos, eu acompanhava os jogos pelo rádio, na década de 60. Tinha toda aquela geração torcendo pelo Santos. Era muito bacana. Hoje um filho meu é santista e o outro, sãopaulino.
JC – O senhor costuma ir a estádios?
Lamoso - Eu vou muito para trabalhar. Assisti a alguns jogos do Noroeste como torcedor, mas a grande maioria foi a trabalho. E quando era capitão, tenente, toda vez que eu ia acompanhar o policiamento em jogos do Noroeste, o time ganhava. Virei talismã. Quando ia outro tenente para o jogo, o Noroeste perdia. Até que eu comentei com o presidente do clube na época, dizendo que não tinha perdido nenhuma partida naqueles últimos dois anos. Quando ele soube, pediu para meu capitão que eu comandasse todos os jogos. E realmente toda vez que eu estive no estádio, o Noroeste nunca perdeu. Se eu contar isso pro pessoal do Noroeste, é capaz de pedirem para eu policiar o próximo jogo.
JC - E a história de ter atuado como jornalista?
Lamoso - Em 1974, o Sérgio Fleury, que hoje dirige o jornal O Debate, de Santa Cruz do Rio Pardo, estudava comigo na 8.ª série. E uma das tarefas do professor de português, Antônio Raimundo, era que os alunos confeccionassem um encarte tipo jornal, de cartolina dobrada ao meio, em quatro páginas. A gente escrevia as notícias em papel almaço e fazia o recorte no formato de um jornal. Eu fiquei encarregado de fazer a cobertura de um acidente de trânsito.
JC – O que a população pode esperar da PM agora?
Lamoso – O batalhão (4.º BPMI) é bastante conhecido na polícia, tem a sua tradição desde 1901. No começo de carreira, o sonho era ser um dia comandante do batalhão. E poucos acabam conseguindo isso. Então a gente pára para refletir sobre a responsabilidade que tem no comando, até pelos grandes comandantes que já passaram por aqui. Alguns chegaram a comandante-geral da PM, como o coronel Eclair (Eliseu Eclair Teixeira Borges). Você vê a responsabilidade de prestar um bom serviço à comunidade, que os anseios da comunidade sejam atendidos, que ela melhore a qualidade de vida.
JC - Podemos esperar uma PM mais moderna e atenta à comunidade?
Lamoso - Sim. Temos vários projetos. Uma viagem de estudos que eu fiz ao Japão em 2002 abriu uma nova perspectiva de Polícia Comunitária. Temos vários projetos para implantar para uma aproximação maior com a comunidade. Um deles é através de visitas aos moradores, dentro do programa Personalizando a Emergência, criado em 2003 e que agora está sendo reformulado. Temos algumas coisas para 2008 e 2009, como o desdobramento do Personalizando a Emergência.
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Perfil
Nome: Pedro Batista Lamoso
Família: casado há 19 anos, dois filhos
Livro: “A noite das grandes fogueiras“, de Douglas Meireles
Música: rock dos anos 70 e 80, principalmente da banda Supertramp
Cor: azul
Nota 10: à população bauruense
Nota 0: à violência