Se a falta de grandes shows e espetáculos na cidade era compensada pela programação do Serviço Social do Comércio (Sesc), agora nem mais isso. Com uma agenda fraca desde o início deste semestre, o Sesc está longe de ser a instituição que preencheu os meses de abril, maio e junho com o teatro de Luís Melo e Celso Frateschi, a música de Paulinho da Viola e Zeca Baleiro e as coreografias da Quasar Cia. de Dança.
O principal motivo alegado pela instituição é a adequação orçamentária a que a unidade teve que passar em função da expectativa da implantação do projeto de lei do Super Simples. O projeto, que unifica numa só guia os impostos e contribuições da União, estados e municípios, foi aprovado no Senado e aguarda apenas a sanção do presidente Lula para entrar em vigor em julho de 2007.
Conforme o JC publicou há três meses, caso seja implantado, o Super Simples permitirá que as micro e pequenas empresas do ramo de prestação de serviços deixem de fazer o recolhimento das contribuições destinadas às entidades privadas de serviço social, como é o caso do Sistema S que abrange o Sesc.
Segundo a chefe de programação da unidade de Bauru do Sesc, Ana Flávia da Cruz Souza, todas as unidades do sistema tiveram que se reorganizar em função do Super Simples. “Em 2007, todas as unidades terão que trabalhar com dois terços da arrecadação atual. Então, para não extrapolarmos neste ano e ficarmos muito aquém do que estamos fazendo, começamos a nos preparar desde já”, explica.
Questionada se o reajuste orçamentário teria sido motivado por possíveis falhas administrativas da unidade, Souza nega. “Não se trata de problemas administrativos. No começo do ano, foi feito um número muito grande de shows e espetáculos teatrais e tivemos que rever a programação para não fecharmos o ano no vermelho, o que possivelmente poderia acontecer”, diz.
O gerente adjunto da unidade, Silvio Luís França, também é categórico ao afirmar que a agenda simplificada do Sesc a partir do segundo semestre não está relacionada à administração da unidade. “A falta de grandes eventos não teria sido causada por problemas administrativos. O que ocorreu é que recebemos uma orientação para aguardar a votação do Super Simples, no Senado realizada há três semanas, para depois repensar as atividades do Sesc”, afirma.
Termômetro
O ano começou quente no Serviço Social do Comércio com shows de Noca da Portela e Thobias da Vai-Vai em fevereiro. No mesmo mês, a unidade recebeu a dama do pop rock Zélia Duncan. Em março, o público agradeceu com casa cheia ao espetáculo encenado por Luís Melo, “Daqui a Duzentos Anos”.
Mas foi nos meses de abril, maio e junho que a unidade ofereceu o maior número de grandes atrações. Kid Vinil e os capixabas do Dead Fish agitaram o Sesc em abril, no mesmo mês em que o anfiteatro foi tomado pela emoção com as vozes de Elis Regina e Tom Jobim interpretadas pelo Quasar Cia. de Dança.
Em maio, a casa novamente ficou lotada com o espetáculo “Sonho de Um Homem Ridículo” com Celso Frateschi. Só o espetáculo bastaria, mas o mês ainda trouxe os mineiros do Tianastácia, a mistura de teatro e música do “Teatro Mágico” e, para fechar com chave de ouro, Paulinho da Viola.
Junho começou com casa cheia com o show do “imbolador” de ritmos Zeca Baleiro, seguido do rock do Autoramas. A tradicional Festa Junina também veio repleta de atrações focadas nas músicas de raiz e regionais, mas sem nenhum grande show, o que já ocorre há dois anos. Em razão das férias escolares, o mês de julho geralmente é fraco de grandes eventos, mas o projeto Sesc Instrumental fugiu à regra com os músicos do Hurtmold.
Agosto prometia um semestre cheio de atividades com o show de Kiko Zambianchi, o Festival de Blues, com nove atrações, e a apresentação da prestigiada Cisne Negro Companhia de Dança. Mas logo veio setembro com apenas um grande destaque na programação, o espetáculo “Milágrimas”, que levou o público ao êxtase em duas apresentações lotadas.
Novembro e dezembro mostraram quedas na temperatura da programação, com shows apenas de artistas de Bauru e região. E tudo indica que a agenda continuará assim nos próximos meses. “Por enquanto não temos nenhum grande nome. Esperamos receber orientações de São Paulo para saber com quais linhas de atrações poderemos trabalhar no ano que vem”, afirma o gerente adjunto da unidade de Bauru, Silvio Luís França.
Para suprir a ausência de grandes eventos, a unidade tem voltando seus olhos para a produção local, que geralmente já tem seu espaço, como o projeto de música DescontraSom, aos domingos. “O lado positivo disso tudo é que estamos incentivando artistas amadores, semi-profissionais e os que ainda não têm uma penetração no eixo Rio-São Paulo”, diz o gerente.
Não que a iniciativa de prestigiar artistas locais não seja boa, nem o trabalho deles merecido, mas a instituição, antes considerada vitrine da qualidade da produção brasileira e palco de artistas que dificilmente viriam à cidade por outros meios, corre o risco de se tornar estilhaços.