10 de julho de 2026
Cultura

‘Turistas’ é alvo de boicote na Internet

Por Da Redação | Com Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

“NÃO ASSISTAM, NÃO DÊEM $$$ A UMA PRODUÇÃO QUE SÓ VISA ACABAR COM NOSSA IMAGEM.” Esse é o trecho principal, em maiúsculas, de um manifesto que circula na Internet pedindo boicote ao filme americano “Turistas”, do diretor John Stockwell. Correntes de e-mails e blogs têm divulgado nos últimos dias uma mesma mensagem contra o filme de terror que tem o Brasil como cenário e uma trama na qual um grupo de jovens vem ao País, é roubado, seqüestrado e cai nas mãos de uma quadrilha de tráfico de órgãos. Em “Turistas”, cariocas falam espanhol e selvas ficam ao lado de metrópoles.

A autoria do manifesto é incerta - nas correntes de e-mail, a mensagem é anônima. A carta descreve o enredo de “Turistas”, diz que “a Embratur está preocupada com a péssima repercussão do filme lá fora” e incita os destinatários: “Vamos fazer deste absurdo, pelo menos aqui no Brasil, um fracasso total de bilheteria”.

“Turistas” estreou nos EUA há duas semanas, sob críticas negativas dos principais jornais americanos. A obra de John Stockwell – diretor de “Gostosa Loucura” - chegará às telas brasileiras em 16 de fevereiro, mas a Paris Filmes, sua distribuidora nacional, já enfrenta protestos contra o lançamento e prepara uma campanha para dissociar sua imagem da atual polêmica: promete inserir uma mensagem ao público no início do filme, dizendo ser contra peças publicitárias que manchem a imagem do Brasil.

“Jogaram o nosso País no lixo em um evento de marketing”, critica Márcio Fraccaroli, diretor geral da Paris, em referência à divulgação de “Turistas” nos EUA pela distribuidora Fox Atomic, novo braço da Fox.

A campanha americana inclui o site Paradise Brazil (www.paradisebrazil.com), ligado à página oficial do filme. Além de mostrar mulheres mortas numa praia, o site traz a seção “Notícias”, que destaca: 1) ações do PCC em São Paulo; 2) seqüestros no Brasil para tráfico de órgãos; 3) realização no País de “snuff movies”, filmes em que cenas de mortes são reais; e 4) a revolução musical dos tropicalistas em 1967, incluindo um clipe de “Panis et Circensis”, dos Mutantes.

Vendido como um similar a “O Albergue”, de 2005 (ambientado na Eslováquia, onde jovens seriam seqüestrados para servirem de cobaias a milionários em exercícios de mutilação e tortura), “Turistas” começa com um grupo de norte-americanos em viagem ao Rio. O trailer, ilustrado por cenas com praias, caipirinhas e salsa, dá uma idéia do que há por vir: “Parece o paraíso. Tem jeito de férias. Mas em um país onde vale tudo, tudo pode acontecer”.

O que acontece é que os turistas são roubados e vão parar numa selva. Dá para assistir ao trailer no You Tube (www.youtube.com) ou por meio do site www.foxatomic.com. O filme é propositalmente trash, mas isso não importa na Internet, onde brasileiros e norte-americanos vêm discutindo a influência que o filme pode ter na imagem do Brasil no Exterior; a percepção que os EUA têm de países do Terceiro Mundo etc.

Fraccaroli afirma que comprou os direitos de exibir “Turistas” no Brasil há dois anos, quando o roteiro estava pronto. “Sabia que o filme seria rodado em Ubatuba, mas não tinha idéia que o Brasil receberia esse tratamento na divulgação. Enviei uma reclamação à Fox.”

O diretor da Paris conta que a campanha brasileira de divulgação tratará “Turistas” como uma ficção, fugindo do mote explorado pelos americanos. Mas concorda que a polêmica aumenta o potencial comercial do filme. “Tudo o que é polêmico no Brasil faz sucesso.”

Em nota, a Embratur disse crer que “o espectador saberá diferenciar a realidade da ficção”, mas que monitora a repercussão do filme nos EUA e trabalha para “reverter eventuais efeitos negativos”. O ator Josh Duhamel, um dos protagonistas de “Turistas”, disse no talk show do apresentador Jay Leno, na rede de TV dos EUA NBC, que o filme não quer afastar os estrangeiros do Brasil e pediu desculpas ao governo e aos brasileiros.

____________________

Simpsons

Em 2002, um evento similar colocou na discussão até mesmo o então presidente Fernando Henrique Cardoso, quando os Simpsons vieram ao Brasil no episódio “Ponham a Culpa em Lisa”. No desenho, a família vem ao País após a menina gastar uma fortuna em telefonemas para ajudar um órfão chamado Ronaldo, que vive no orfanato “Anjos Imundos” – o dinheiro permitiu ao garoto comprar sapatos de dança e uma porta para proteger o local, invadido por macacos (!!!) a todo mundo momento.

E seguem-se cenas satirizando a paixão pelo futebol, programas infantis “eróticos” na TV, o Carnaval e as escolas de samba, uma nova dança com coreografia – a “Enfiada” –, trombadinhas e seqüestros na Amazônia.

Célebre por colocar o dedo em todas as feridas da sociedade americana, satirizando o estilo de vida, o consumo e o entretenimento, o criador do desenho, Matt Groening vem mirando suas piadas também a diversos países em especiais de férias da família Simpson, e o caso do Brasil foi apenas mais um em suas 17 temporadas. Na ocasião, FHC exigiu desculpas da Fox e a Riotur ameaçou processar o criador do desenho.

Da Redação