11 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: O fato dentro dos fatos

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Ao anoitecer, o beduíno se acomodou entre seus camelos e deitou-se para descansar depois de um longo dia de viagem. Mas antes que caísse em profundo sono, o homem do deserto olhou para o céu. Imediatamente, o beduíno foi tomado por uma sensação totalmente nova. Um gigantesco mar de estrelas que inundava o céu de firmamento a firmamento apareceu diante de seus olhos e o homem do deserto se sentiu em uma condição questionada. Era como se algo o perguntasse: o que você está fazendo aqui? Afinal, qual o significado de sua vida? Nesse momento, o beduíno se esqueceu de todas as suas preocupações cotidianas e um único sentimento tomou conta de seu ser: o temor.

Segundo Abraham Heschel, nós podemos perceber na natureza três dimensões fundamentais: a força, a beleza e a grandeza. Enquanto podemos explorar a força da natureza e desfrutar de sua beleza, a dimensão de grandeza possui a função de nos despertar para um estado primitivo e essencial: o temor. Immanuel Kant diz que a beleza é o que agrada, sem qualquer interesse, e o sublime, ou seja, a dimensão que Heschel chama de grandeza, é o que agrada através da oposição ao interesse dos sentidos. O belo nos prepara para amar desinteressadamente, até mesmo a própria natureza, mas o sublime nos prepara para considerar tudo mais elevadamente, até mesmo em oposição ao nosso próprio interesse.

Em outras palavras, a grandeza faz com que o ser humano seja despertado para um mistério, algo que faz nascer neste ser humano profundo respeito, fascínio e desejo de conhecer. Este sublime, ou esta grandeza, não está necessariamente relacionada ao vasto, ao esmagador, como o maravilhoso céu estrelado do deserto ou o terrível terremoto, mas também pode ser percebida na frágil flor, na pequena gota de água ou no insignificante inseto.

Da mesma forma, a grandeza não está somente nas coisas que percebemos, mas também no fato de podermos percebê-las. No simples fato deste artigo estar sendo lido neste momento existe uma grandeza, um mistério que as ciências podem explicar seu funcionamento, mas não a sua existência. Em tudo que percebemos e em nosso próprio potencial de perceber existe um fato que sabemos existir, mas não sabemos explicar o porquê. Se prestarmos a devida atenção à vida, deslumbra-se diante de nossos sentidos o conhecido-desconhecido, um mistério que é revelado, mas que continua a ser mistério.

O sentimento que possuímos ao percebermos o fato dentro de todos os fatos é o assombro, um estado de todo o nosso ser em que os sentido ficam em suspense em algum grau de espanto. Uma perplexidade radical brota em nossa consciência, pois percebemos que não existe diante de nós simplesmente um cosmos (um mundo organizado), mas principalmente um enigma. Em hebraico a palavra bíblica “Olam” quer dizer mundo, uma palavra que possui como raiz etimológica “Alam” que, por sua vez, significa guardar segredo.

Para o homem do Antigo Testamento o mundo é sinônimo de uma caixa que guarda um grande segredo. Eis a condição humana para o homem do Antigo Testamento: sabemos que existe algo que não sabemos. Aqui podemos perceber a diferença entre pensamento grego e o pensamento hebraico. Para os gregos o universo é um cosmos, uma ordem preestabelecida. Diante deste “quebra-cabeças” podemos utilizar nosso intelecto para compreendê-lo. Em outras palavras, para os gregos o cosmos é uma resposta. Para o pensamento hebraico, o cosmos é essencialmente uma pergunta: Por que existe esta ordem?

O grande obstáculo para a percepção do mistério é o nosso ajustamento às noções convencionais, aos clichês mentais, como também à rotina cotidiana que nos afasta da contemplação da vida. A terrível tragédia humana é ofuscar todo prodígio com a indiferença. A vida é rotina e rotina resiste ao prodígio, pois nela uma pessoa pode ver muitas coisas sem observá-las. O ser humano permanece, então, como o peixe no aquário. Mas, se quebramos a rotina e nos libertamos do pensamento convencional percebendo algo que sustenta a existência somos imediatamente tomados pelo temor. Este estado é o início do pensamento religioso.

Ser religioso é estar tomado pelo fascínio deste conhecido-desconhecido e partir para uma busca em conhecê-lo, o que faz todo nosso ser, não somente nosso intelecto, transcender. Por isso, temor não significa medo. O medo nos afasta, nos aterroriza. O temor nos atrai, nos gera o desejo de não somente conhecer, mas fazer uma experiência de vida, de transcender. O pensamento religioso está em perigo quando, não movido por este temor, constrói conceitos e dogmas, verdades rígidas que cegam os nossos olhos para o mistério.

Como diz sabiamente Heschel, conceitos e palavras não devem ser encarados como paredes, eles devem ser compreendidos como janelas. O pecado primordial no Antigo Testamento é a dureza de coração, em outras palavras, a insensibilidade. A verdadeira religião não foi feita para os momentos que percebemos como extraordinários (nascimento, casamento, morte), mas a compreensão de que o trivial é extraordinário. A percepção de que existe algo que nos chama a conhecer, a experimentar, a transcender. Este conhecido-desconhecido é a eternidade por trás de todos fatos que provoca cada ser humano: seja!