Tornar-se uma unanimidade é algo extremamente difícil, tanto para pessoas quanto para instituições. Em Bauru, porém, alguns serviços públicos têm alcançado esse feito. E isso se dá maneira quase “louvável” quando o assunto em questão é buraco. É difícil encontrar um habitante da cidade, atualmente, que não tenha pelo menos uma reclamação sobre isso.
O descrédito é geral, e afeta moradores de bairros ricos, pobres e remediados. Benedita Francisca Vasconcelos, 53 anos, líder comunitária no Jardim Andorfato, já perdeu as contas de quantos abaixo-assinados já organizou. “Se existe essa buraqueira pela vizinhança, não foi falta da gente batalhar. Os grandões já estão cansados de saber os problemas que o pessoal daqui enfrenta”, diz.
Por enquanto, as mobilizações organizadas por ela não têm obtido grande êxito. A rua onde a presidente vive, a Miguel Antônio de Lucas, é de terra e encontra-se tomada pela erosão. São tantas valas e sulcos espalhados pelo solo que o marido de Vasconcelos tem de fazer malabarismos para poder transitar de carro pelo local.
Diva Dias, moradora do Jardim Solange, também já perdeu a confiança nos serviços públicos. No caso dela, não poderia ser diferente: desde que se mudou para o local, em 1987, ela tem enfrentado todo tipo de carência.
“Aqui falta de tudo. A única coisa que temos é o básico para um ser humano não morrer”, diz. Falando assim, pode até parecer exagero. Na verdade, a afirmação não está longe da realidade existente no bairro. No Jardim Solange, as ruas não possuem asfalto, guias ou calçadas. As vias são mal iluminadas, rodeadas de terrenos baldios, repletos de mato.
Escorpiões, ratos, aranhas e descrédito em relação ao poder público são as poucas coisas que o bairro tem de sobra, atualmente. A situação pode parecer péssima, mas no passado foi ainda pior. “Quando me mudei para cá, nem água havia nas casas. A gente tinha de pegar no Recinto Melo Moraes ou no rio que passa aqui perto”, lembra Dias.
Inconformada com a situação, ela resolveu se queixar com um vereador da época, mas a experiência não foi nada agradável. “Ele virou para mim e falou: ‘Você não é melhor do que ninguém. Coloca uma lata na cabeça e vai pegar água no riacho também’”, afirma.
Não à toa, moradores da periferia costumam desconfiar dos governantes em geral. “Esses políticos vivem enganando a gente”, reclama Vasconcelos. A última promessa feita aos moradores do Jardim Andorfato é referente à pavimentação das ruas do bairro, prevista para ser iniciada em 2007.
“Eu acho que isso é enrolação. Como chegou a época das chuvas, eles sabem que a gente vai reclamar da buraqueira”, diz. Aliás, ela considera que a promessa de asfalto é, na verdade, uma espécie de “cala-boca” da prefeitura.
“Dizem isso para nos acalmar, mas depois vão empurrando com a barriga até o final do mandato”, pensa. Em alguns casos, o descrédito é tanto que muitas pessoas acabam desistindo de lutar por seus direitos. Apesar de conviver há anos com a lama e a poeira das ruas do Parque Rossevelt, o artesão Gilson Figueiredo nunca reclamou na prefeitura. “E adianta? Eles já tem muitos problemas com que se preocupar”, avalia.
Toda essa desconfiança pode ser resumida na fala de um aposentado do Parque das Nações que não quis se identificar. “Faz 20 anos que fazemos protestos contra enchentes, damos entrevistas para TV, rádio e jornal, mas nada mudou. Não adianta...”, queixa-se. A casa onde ele vive, localizada na rua Luiz Ferrari, costuma ser atingida todos os anos pelas inundações que afligem o bairro.