Diante da avalanche de cartas, neste jornal, e de recados no meu orkut, vindos dos mais distantes lugares, Paraíba, Ceará, Minas, a favor ou contra minhas palavras, sinto-me levada a completar o que comecei a explicar na 5ª feira, 07/12. Acredito que a principal curiosidade é saber o que significa “análise semiótica do discurso”. Nos anos em que me dediquei ao estudo aprofundado dos mitos bíblicos, não foi fácil desvendar os mistérios da semiótica francesa-greimasiana, para entender as tramas desse discurso fundador da nossa cultura que é o Antigo Testamento ou Bíblia Hebraica. Foram muitas horas, meses e anos lendo, estudando e refletindo, para descobrir que a porta de entrada para minha análise era a diferença entre “saber” e “crer”.
Greimas, linguista de origem lituana, dedicou-se na França, entre os anos 1960 e 1990, ao estudo do “discurso”, para chegar à conclusão de que se trata do resultado de um processo linguístico-ideológico de construção das formas de representação do mundo que nos cerca, ele próprio sendo também um discurso, com plano da expressão e plano do conteúdo. Mas sua maior proeza foi colocar em termos científicos o que muito de nós já sabíamos por intuição: não existem discursos verdadeiros, todos (científicos, didáticos, jornalísticos, políticos, religiosos, artísticos, cotidianos) são apenas “veridictórios”, isto é, parecem verdadeiros. E a adesão a um discurso por parte dos ouvintes, leitores ou observadores é um ato epistêmico passional, de crença ou descrença, de fé, confiança, esperança ou os seus contrários.
Trocando em miúdos: como fazemos, então, para acreditar em algo/alguém ou para que outros acreditem em nós? A resposta encontrada foi: a crença baseia-se na confiança, estabelecendo-se um “contrato fiduciário”. Mas a maior dor da condição humana é que esse contrato pode se romper a qualquer momento, em qualquer condição de relacionamento humano. O saber é uma atitude cognitiva: tomamos conhecimento de alguma coisa. O crer é uma segunda atitude: acreditamos ou não. É assim na vida familiar e social e também nos aprendizados religiosos, científicos, filosóficos ou artísticos. Durante muito tempo os críticos de literatura e outras artes achavam que apenas nesse tipo de discurso havia confusão entre ser e parecer. A semiótica descobriu e comprovou que isso acontece em todos os discursos, e as paixões humanas é que são responsáveis, em diferentes graus, pelas mentiras e falsidades (parecer e não-ser). Foi isso que me levou a estudar, no templo sagrado da universidade, as paixões concretizadas em figuras discursivas no Antigo Testamento, berço da nossa (in)consciência.
O título “No princípio era o poder” faz um jogo de palavras com “No princípio era o verbo”, verbo usado aí no sentido de “palavra”. E realmente a força do “discurso verbal” é enorme, razão pela qual os hebreus/judeus resolveram escrever sua história, do seu ponto de vista evidentemente (é o que todos fazem, sem exceção). A palavra “poder” foi usada para dar a entender que toda a história narrada no Antigo Testamento se resume a uma disputa pelo poder: os hebreus, pobres nômades do deserto, precisavam mostrar aos donos da “terra prometida” que havia um só deus, o deus de Abraão, e que este prometera a eles a faixa de terras mais fértil da antiga Cananéia ou Palestina atual. Mas eles perderam todas as guerras e foram expulsos da “sua” terra, embora não seja essa a história que contam.
A terra, benção divina em qualquer mito religioso, continua dando poder aos que a possuem em qualquer tempo e lugar. As mesmas guerras dos tempos bíblicos continuam até hoje, assim como as mesmas disputas entre irmãos, primos, parentes de um modo particular, e todos os humanos de um modo geral. O objetivo de uma tese acadêmica nunca é levar alguém a crer em algo ou a renegar sua crença, mas ajudar as pessoas a entender melhor a vida e a respeitar o próximo, como a si mesmo. Dou por finda a polêmica.
A autora, Mariza B. T. Mendes, é doutora em análise de discurso