08 de julho de 2026
Internacional

Centenas de chilenos velam Pinochet

Por Bruno Lima | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Santiago - O primeiro dia do Chile sem seu mais controvertido personagem - o ditador Augusto Pinochet Ugarte, que comandou o país de 1973 a 1990 e que morreu anteontem aos 91 anos - expôs ao mundo as feridas abertas na política e no povo chileno e se materializou em violência e choro em diversos pontos de Santiago.

Ontem, sob o sol e um calor de 29 ºC, pelo menos 15 mil pessoas esperaram até cerca de oito horas na fila para ficar três segundos diante do caixão de Pinochet, cujo rosto podia ser visto pelo vidro. Com farda de gala, o general foi velado em uma capela improvisada no hall de honra da mesma escola militar em que prestou serviços como tenente e capitão nos anos 40 e 50.

Com a presença do chefe da Igreja Católica chilena, cardeal Francisco Javier Errázuriz, que ontem pediu “que Deus não leve em conta os males” de Pinochet, foi cantado o hino nacional, incluindo o verso que cita os “valentes soldados chilenos”, símbolo do regime militar e que não é cantado oficialmente desde a redemocratização.

Marco Antonio Pinochet, filho do ditador, disse que, por “respeito à família”, gostaria que nenhum membro do governo chileno fosse aos ritos fúnebres de ontem e hoje. Pinochet, que deve ser cremado hoje após missa ao ar livre, não recebeu honras de chefe de Estado por decisão da presidente Michelle Bachelet. Teve direito apenas aos rituais destinados a ex-comandantes-chefes do Exército.

Bachelet disse ontem que “pensou no bem do país” para tomar sua decisão e disse ver com pesar as manifestações violentas ocorridas na cidade. Entre a noite de anteontem e a madrugada de ontem, manifestações em todo o Chile terminaram com 99 detidos e 43 policiais militares feridos. Houve saques a lojas, vandalismo, queima de carros e ônibus. A polícia usou gás lacrimogêneo contra milhares de pessoas que celebravam no centro de Santiago, perto do Palácio La Moneda, sede do governo chileno, a morte do ditador como se fosse uma vitória de futebol, com cerveja e buzinaço. Havia pessoas até de madrugada no local - várias delas com a bandeira do Partido Comunista. “É carnaval, já morreu o general”, cantavam. “Olê, olê, morreu o ‘Perrochet’” (em referência à palavra “perro”, cachorro em espanhol).

Em frente ao Hospital Militar, onde morreu Pinochet, direitistas e fanáticos de Pinochet esperavam o translado do corpo. “Sou muito grata a ele porque salvou meu país de ser uma segunda Cuba”, afirmou Milena Izquierdo, 51 anos. Na fila para ver o corpo, a aposentada Berta Sales, 80 anos, insistia que valia a pena estar ali e lembrava que os sistemas de saúde e previdenciário chilenos até hoje são os deixados por Pinochet. “Vim com minha empregada. Ambas amamos Pinochet. Há gente de todas as classes.” Também houve protestos e comemorações ontem em vários pontos da Capital chilena.

No Chile, é bem mais definida do que em outros países da América Latina a separação política entre esquerda e direita. Pinochet, como figura política, ajuda a evidenciar essa marca. Além dos comunistas, que comemoraram ostensivamente nas ruas a morte do ditador, outros setores políticos mais de direita já haviam rompido com Pinochet muito antes da morte.