11 de julho de 2026
Geral

Ricardo Kotscho defende jornalismo aprofundado em palestra em Bauru

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Ricardo Kotscho é um narrador por natureza. Já foi editor e chefe de redação em grandes veículos de comunicação do País, mas é contando histórias que ele encontra satisfação profissional. O jornalista veio a Bauru ontem para divulgar sua autobiografia, “Do Golpe ao Planalto - Uma Vida de Repórter” (350 páginas, Companhia das Letras).

O livro percorre 40 anos da carreira de Kotscho, desde os primeiros empregos, em jornais do bairro de Santo Amaro, Capital, passando pelas redações de Estadão, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, até sua despedida, no final de 2004, do comando da Secretaria de Imprensa da Presidência da República.

O jornalista participou de um bate-papo no Automóvel Club, ontem à noite. O evento foi promovido pela Regional Bauru do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura.

Pela manhã, em visita ao Jornal da Cidade, Kotscho defendeu que a imprensa escrita precisa mudar para sobreviver à concorrência dos meios eletrônicos. “A Internet é muito rápida e oferece, a toda hora, uma quantidade enorme de novas informações ao público”, disse.

Por natureza, os veículos impressos não são capazes de acompanhar o ritmo das mídias eletrônicas, avalia Kotscho. “Raramente os jornais conseguem veicular algo novo hoje em dia”, afirma.

A solução defendida por ele, para o problema da falta de novidades nos meios escritos, estaria no “jornalismo de profundidade”. “Essa é a única forma de veículos impressos se anteciparem à Internet. Ao invés de tentar cobrir tudo que ocorre no mundo, com pequenas notas superficiais, os jornais deveriam investir em grandes reportagens”, pensa. Ele fala com a autoridade de quem criou um estilo de escrita inovador ao longo da carreira.

Ao contrário do que costuma ocorrer nos grandes jornais, Kotscho prefere investir em abordagens inusitadas, valorizando as personagens comuns. Isso, inclusive, rendeu a ele o apelido de “repórter do pipoqueiro”, por conta de uma entrevista feita com um vendedor ambulante, no final dos anos 70.

“Eu costumo dizer que nossa mídia tem Brasília de mais e Brasil de menos”, brinca. Na visão de Kotscho, a imprensa, em geral, anda muito burocrática. “Os jornais estão muito parecidos. O correto seria que eles se diferenciassem entre si, com coberturas próprias e bem trabalhadas”, pensa.

Para ele, isso traria vantagens aos veículos impressos na concorrência com os meios eletrônicos. “A Internet precisa de informações imediatas, que em geral são curtas. Ela não tem condições de aprofundar demais num fato, pois isso traria um prejuízo à velocidade de transmissão da notícia”, explica.

Kotscho lembra que essa adaptação é essencial para que a imprensa escrita possa continuar existindo. “Nos últimos anos, a circulação dos jornais vem caindo mais e mais, na medida em que cresce o acesso do público à Internet”, avalia.

Apesar da situação atual, ele duvida que a imprensa escrita venha a desaparecer algum dia. “O surgimento do cinema, por exemplo, não fez com que o teatro deixasse de existir. O mesmo vai ocorrer com as mídias escritas, em relação às digitais. Tudo vai depender de como os jornais irão se adaptar à nova realidade”, conclui.

Kotscho pretende lançar uma revista de grandes reportagens nos próximos anos. “Ela irá se chamar ‘Brasileiros’ e dará espaço para as pessoas comuns, que não costumam ter lugar na grande mídia”, diz.

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Evolução

Militante político há várias décadas, o jornalista Ricardo Kotscho não poderia deixar de abordar, durante sua estada em Bauru, os recentes escândalos de corrupção envolvendo o PT. Na opinião dele, o partido errou, quando lançou mão de meios questionáveis para garantir maioria no Congresso Nacional.

“Não adianta tapar o sol com a peneira, pois essas práticas sempre foram criticadas pelos militantes do PT. Eles deveriam, no mínimo, ter evitado que isso ocorresse”, disse, em visita do Jornal da Cidade, ontem pela manhã. Durante quase dois anos, Kotscho - que nunca foi filiado ao partido, apesar de ter tomado parte em inúmeras campanhas eleitorais de Luís Inácio Lula da Silva - ocupou o cargo de secretário de Imprensa da Presidência da República.

Apesar de haver se desligado do cargo no final de 2004, após a divulgação pela imprensa do escândalo do mensalão, Kotscho continua acreditando no sucesso do governo Lula, de quem é amigo pessoal há mais de 30 anos - relação anterior, inclusive, à fundação do próprio PT.

“Na verdade, não saí da secretaria por causa das denúncias. Quando fui para lá, em 2003, já estava acertado que seria apenas para montar a estrutura da Secretaria de Comunicação”, garante. Ele usa um detalhe para reforçar seu argumento. “Minha família não veio comigo, pois sabia que eu ficaria pouco tempo em Brasília”, afirma. Mesmo com todos os recentes escândalos surgidos nos últimos tempos, Kotscho acredita que a política brasileira tem mostrado sinais de evolução.

“Nunca, na história deste País”, disse, quase que parafraseando o presidente Lula, “se combateu tanto a corrupção como agora. A Polícia Federal tem feito várias investigações e o Congresso tem colocado diversas CPIs para funcionar”, acredita.