Hoje me recordo com muita saudade do tempo que passou, especialmente quando nos finais de semana no início do ano de 1960 aprontava minha traia, colocava numa sacola de couro todos os apetrechos de pesca, como caixa de anzóis, comida e um cobertor feito de retalhos que minha mãe com muito carinho fez para mim (e que servia de colchão e cobertor). Muitas vezes ainda levada rede, tarrafa, espingarda e até bateria, tudo nas costas. Era na época um sacrifício, mas um sacrifício que valia a pena.
Chegando na beira do rio, somente a copa das árvores era nosso rancho, não tinha carro, mas havia um grande amigo, de quem até hoje sinto a sua falta (infelizmente seu prazo terminou, eu acho que foi cedo, mas o Criador sabe a data certa para chamar cada um de nós, quem somos para julgar?). Seu nome era Silas Vicente de Toledo Piza, grande pescador, de quem guardo grandes recordações e muitas lembranças das pescarias no Rio Batalha.
Todo final de semana quando não tinha plantão nos cinemas ou clubes - na época eu era comissário de menores, bem como meu amigo -, sempre nas sextas-feiras no final da tarde, eu deixava namorada (hoje minha mulher) e o amigo também deixava sua mulher e filhos e seguíamos de ônibus da Reunidas. Descíamos nas proximidades da entrada de Avaí e, daí, a pé com toda a trouxa nas costas, andávamos por uns dois quilômetros até a beira do rio onde, já escuro, acendíamos uma fogueira e armávamos as redes de pesca.
Em seguida o Silas preparava o jantar e logo íamos dormir ali mesmo, debaixo das árvores. Quantas vezes acordamos com chuva? Mas tudo era festa, como diz o ditado, “era feliz e não sabia”. Aí no meio da mata, na beira do rio, ouvindo aqueles pássaros noturnos, o barulho do peixe pulando e outros sons que até hoje não consigo identificar. Mas como era saudável, não tinha violência, pernoitava sem nenhuma preocupação, somente esperava o amanhecer para correr as redes.
O pescador sempre tem uma história para contar. Dentre muitas que aconteceram, uma não esqueço jamais: numa manhã, ao recolher as redes, tive que entrar no rio, pois havia chovido muito à noite e o rio estava cheio. Com muita correnteza, não tive outra alternativa senão me amarrar numa corda e os colegas segurando até chegar ao final da rede, que estava pesada e puxando muito. Quando comecei a recolher, tive a grata surpresa de no final da rede estar enroscada uma sucuri de mais ou menos uns 5 metros.
Foi um grande susto, entretanto, após a ajuda dos colegas Zé do Presídio e Capelari, recolhemos a rede e soltamos a cobra, que pena que na hora não havia sequer uma máquina para fotografar o bicho. Aos amigos pescadores de hoje, eu digo, é muito diferente daquele tempo, hoje temos o veículo, o luxo e a facilidade, mas aproveitem bem esse tempo que passam na beira do rio, pois é um tempo que não volta mais e verão, no futuro, quando já idosos, que a lembrança e a saudade do tempo de pescaria com os amigos passados na beira do rio não foram em vão.
Não esqueçam jamais dos amigos pescadores, pois eles também não o esquecerão, como eu até hoje não esqueço do amigo Silas Vicente de Toledo Piza, a quem homenageio com esta história. Esteja onde estiver, tenho a certeza que ficará muito feliz com esta lembrança.
José Onofre Roda é pescador e contador de histórias.