11 de julho de 2026
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De novo liberalismo x socialismo. Até quando?


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Hugo Chávez foi reeleito com quase sete milhões de votos para um mandato de mais seis anos. Desde 1998 no poder, o presidente venezuelano tem sido criticado pela oposição por interferir no funcionamento das instituições e da imprensa em prol da implantação de uma ditadura socialista. Em visita ao Brasil nessa mesma semana de sua reeleição, Chávez declarou que “ninguém vai me tirar deste caminho para o socialismo”. Para muitos, a derrubada do muro de Berlim teria sido o marco oficial da queda do comunismo em escala global. No entanto, os comunistas que remanesceram à derrocada de 1989 parecem ter analisado os erros cometidos pela União Soviética, em especial os de caráter econômico, e tentado corrigí-los para propiciar a manutenção e até mesmo a expansão de seu poder. Particulamente na América do Sul, o berço desse novo comunismo, os líderes de esquerda procuraram adotar um modelo misto, comunista no político, liberal no econômico, o que lhes permitiu ganhar fôlego para iniciar uma nova corrida pela revolução, valendo-se dos meios democráticos.

Em julho de 1990, após conceder aos estrangeiros condições preferenciais para que investissem seus capitais em Cuba, jogada necessária para reorganizar suas forças, Fidel Castro buscou amplo apoio popular no ascendente Partido dos Trabalhadores e organizou o Foro de São Paulo, embrião do Fórum Social Mundial, os quais vieram a formar uma plataforma política de estrutura socialista com forte influência na América Latina. Com essa plataforma, Chávez assumiu a presidência em 1998 e, na medida da expansão dos Foros, outros membros aliados chegaram ao poder pelas vias democráticas, no Brasil com Lula (2002), na Argentina com Kirchner (2003), no Uruguai com Tabaré Vasquez (2004), na Bolívia com Evo Morales (2005) e no Chile com a presidenta Michelle Bachelet (2006). Enganam-se, pois, os liberais que acreditavam na morte do comunismo. O problema maior da tensão entre liberalismo e comunismo, a tônica de discussão do último século mundo afora, é que nenhum dos dois tem se mostrado eficaz aos fins aos quais se propõem, quais sejam, a redução das desigualdades e da pobreza, o primeiro baseado nos ajustes naturais que as leis de mercado fatalmente tenderiam a conduzir, o segundo propagando a idéia de que a tomada dos meios de produção pelo Estado proporcionaria a repartição de toda riqueza ao proletariado. O neoliberalismo gerou a especulação financeira e monetária, a abertura indiscriminada às importações e a alta injustificada das taxas de juros para favorecer interesses particulares ambiciosos. O comunismo levou a ditaduras e incitou guerras ao expor todo o problema como uma simples luta de classes, propondo a negação da propriedade privada e levando à ira revolucionária os excluídos pelo sistema liberal; quando avançou, gerou desmedida burocracia e corrupção.

O certo é que tanto o liberalismo quanto o comunismo têm raízes filosóficas no materialismo, pensamento que nega a transcendência humana e enxerga o indivíduo como um fim em si mesmo, como uma existência finita. O Papa Leão XIII, do alto de sua sabedoria espiritual, já enunciara isso em 1891, através da encíclica Rerum Novarum, no que foi corroborado em 1987 pelo Papa João Paulo II, através da Sollicitudo Rei Socialis, para quem “No Ocidente, existe de fato um sistema que se inspira fundamentalmente nos princípios do capitalismo liberalista (...); no Oriente, há um sistema inspirado pelo coletivismo marxista (...) Cada um dos dois blocos esconde no seu âmago a tendência para o imperialismo”. Curioso é que sempre que um falha reste o outro como única alternativa, num círculo vicioso fechado, como se não houvesse outra doutrina ou modelo a seguir. No Brasil, a exemplo de grande parte do continente, o pêndulo aponta para o socialismo, na roupagem do Estado Social, ultimamente até Assistencial. Já tivemos a oportunidade de questionar esse modelo, tentando demonstrar que o Estado não tem condições de arcar com todo esse ônus, sob pena mesmo de sucumbir (“A contradição do Estado Social”, JC de 21.11.2006; e “O Estado tutor”, JC de 27.11.2006). A pergunta que fica é: existe espaço para uma terceira opção? É possível um capitalismo saudável? Um modelo que assegure desenvolvimento e ao mesmo tempo respeito à dignidade humana? Até quando a opção será apenas entre neoliberalismo e socialismo? Que a resposta venha logo dos céus.

O autor, Murilo Almeida Gimenes, é delegado de Polícia Federal em Bauru e colaborador desta coluna