Rio - A Polícia Federal (PF) prendeu ontem 75 policiais militares acusados de participar de um esquema de extorsão, apoio e negociação com traficantes da favela do Muquiço (Guadalupe, zona norte do Rio). As prisões ocorreram nos quartéis ou na chegada ao trabalho.
A operação, chamada de Tingüi em razão de um riacho que passa pela favela, resultou na maior prisão coletiva de policiais militares em todos os tempos no Rio, informou o próprio comandante da corporação, coronel Hudson de Aguiar.
As investigações começaram em janeiro, quando a Superintendência da PF no Rio, por ordem de Brasília, passou a acompanhar a ação de mercenários angolanos na favela, a serviço da facção criminosa Amigo dos Amigos (ADA). À tarde, em nova operação, a PF prendeu mais cinco policiais militares, sob a acusação de envolvimento com a máfia dos caça-níqueis. Um deles é o coronel Celso Nogueira, comandante do 14.º Batalhão da PM, em Bangu (zona oeste).
Também acusado no caso dos caça-níqueis, o delegado Álvaro Lins, que chefiou a Polícia Civil até o início do ano e deputado federal recém-eleito pelo PMDB, teve a prisão pedida pela PF, mas a Justiça não a autorizou. Outros 45 mandados de prisão foram expedidos. No caso do Muquiço, foram expedidos 76 mandados de prisão e de busca e apreensão nas casas, carros e armários funcionais dos policiais militares. Só um deles não tinha sido preso até o começo da noite de ontem.
Os acusados representam uma parcela pequena dos policiais envolvidos com os traficantes do Muquiço, conforme indicam as investigações. Os 76 PMs com mandado de prisão expedidos integram apenas 17 das guarnições sob suspeita. Dos acusados no caso da favela, 40 trabalham no 14.º BPM. Todos foram presos. Um deles é tenente, único oficial descoberto até agora. Os demais são sargentos, cabos e soldados.
Outros 26 policiais militares são do 9.º Rocha Miranda, zona norte(BPM). Só um permanecia foragido até a conclusão desta edição. Outros oito trabalham no Grupamento Especial Tático-Móvel (Getam) do Batalhão de Choque, no centro. Um, no 3.º BPM (Méier, zona norte) e outro no 4.º BPM (São Cristóvão, zona norte).
A Polícia Federal e a Polícia Militar informaram que os policiais acusados, entre outros crimes, vendiam armas, drogas e munição para os traficantes da favela, seqüestravam inimigos e os entregavam para a quadrilha, extorquiam dinheiro de criminosos, cometiam assassinatos e exigiam pagamentos semanais, como um pedágio para autorizar o funcionamento dos pontos-de-venda de drogas.
Também ajudavam a quadrilha a enfrentar inimigos. Ao chegarem ao batalhão, de manhã cedo, os acusados receberam voz de prisão ainda na rua. Os que estavam fardados foram obrigados a tirar a camisa do lado de fora do quartel.
Para realizar as prisões, a PM escalou 330 policiais da Corregedoria, que usaram 80 carros. A PF empregou 380 agentes - do Rio, São Paulo, Paraná, Espírito Santo e Minas Gerais. Ministro Ao comentar a operação, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, defendeu que as polícias “cortem na própria carne” e disse que afastar os policiais envolvidos com o crime é a solução para ter polícias dedicadas a combater o crime.