La Paz - O departamento (Estado) boliviano de Santa Cruz registrou entre a noite de sexta-feira e a madrugada de sábado o segundo dia de confrontos entre simpatizantes do governo e oposicionistas, em meio à crescente crise política em torno do sistema de votação da Assembléia Constituinte. O governo afirma que houve apenas 20 feridos, mas a imprensa local diz que esse número chegou a pelo menos 90, a maioria vítima de pedradas. Ao menos dez carros foram destruídos.
Os novos incidentes foram registrados em San Javier e Concepción, no norte do departamento, onde duas sedes de organizações indígenas em favor de Morales foram destruídas por oposicionistas.
Os ataques foram considerados pela polícia como uma resposta ao bloqueio realizado por simpatizantes do presidente Evo Morales desde quinta-feira à noite na cidade de San Julián, também ao norte de Santa Cruz.
O objetivo do bloqueio era evitar a chegada de militantes oposicionistas ao grande ato de protesto realizado anteontem à noite em Santa Cruz e em outros três departamentos governados por oposicionistas. Em todas as concentrações, o comparecimento chegou a dezenas de milhares de pessoas. Em Santa Cruz, esse número chegou a centenas de milhares.
Nos atos simultâneos, os oposicionistas exortaram a população a não reconhecer uma nova Constituição caso o sistema de votação na Constituinte se mantenha por maioria simples - com a exceção de até três artigos constitucionais, os quais precisaram de dois terços -, como aprovou a bancada governista. A oposição exige dois terços em todas as votações.
Em seu discurso em Santa Cruz, o governador Rubén Costas também ameaçou criar “os princípios de um Estado de direito’’ no departamento mais rico do país caso a Constituinte mantenha o atual sistema de votação. Costas disse, no entanto, que a manifestação não era “um grito de independência’’ e exortou a multidão a gritar “autonomia’’.
Após as manifestações, Morales disse que ficou impressionado “com as intervenções que vão pela unidade do país. Felicito esse discurso’’. No entanto, voltou a defender o atual sistema de votação. “Há dois terços no regulamento dos debates e também o voto do povo (referendo para até três artigos considerados polêmicos que não consigam dois terços), que é o mais democrático’’, afirmou, segundo o jornal “La Razón’’.
Apesar dos elogios de Morales, a agência de notícias do governo, ABI, acusou os governadores da oposição de “manipular o povo e desconhecer a Assembléia’’ e acusou as emissoras de TV de apoiar o movimento ao transmitir ao vivo com palavras de incentivo.
O presidente boliviano também negou declarações de congressistas do MAS (Movimento ao Socialismo) de que ele convocaria uma cúpula com os governadores oposicionistas para amanhã. Segundo ele, o impasse tem de ser resolvido “dentro do marco da Assembléia Constituinte”.