10 de julho de 2026
Articulistas

O Brasil do faz de conta


| Tempo de leitura: 2 min

Ao ler o noticiário sobre as prestações de contas dos candidatos, eu vejo que o nosso País passa por um momento de falta de honestidade sem precedentes.

É tudo faz de conta. Faz de conta que as contas estão certas; faz de conta que não houve “Caixa Dois”, faz de conta que as doações foram feitas com total desinteresse; enfim, faz de conta que o povo brasileiro acredita em tudo que o nosso Presidente fala.

Em todas as atividades, temos exemplos disso:

Tivemos um acidente aéreo sem precedentes na nossa história. O resultado das apurações (ainda parcial) nos leva a uma conclusão: culpa-se todo mundo e ninguém é ao final responsabilizado.

Os mensaleiros, os sanguessugas, os políticos desonestos, sofrem processo de cassação, a imprensa faz o maior estardalhaço, alguns políticos esbravejam, outros defendem e, ao final, tudo vira pizza. Eles fazem de conta que vão cassar os seus pares, porem na hora H, com o voto secreto ninguém é condenado.

Voltando às prestações de contas dos candidatos, antes de começar o processo eleitoral falava-se que desta vez tudo seria diferente. Rigor no exame das contas, imparcialidade na apuração de resultados, enfim, seria uma eleição com o rigor da lei.

Qual o resultado? Contas reprovadas pelo relator, contas aprovadas pela Procuradoria Eleitoral. E vejam o absurdo: para não ficar feio, surge uma regra nova que beira o absurdo. Aprovada com restrições. Dessa forma agrada-se a gregos e troianos. Quem rejeitou não fica triste e o dono da conta é salvo e pode ser diplomado e empossado.

A declaração mais absurda que eu li a respeito deste assunto vem do órgão que tem por obrigação fiscalizar o cumprimento da lei: a Procuradoria Eleitoral.

Sobre o repasse de R$ 10 mil, o parecer recorre a uma decisão da ministra Ellen Gracie, que aprovou as contas do candidato Lula em 2002 (com ressalvas) e sustenta que “Nada será feito, pois o valor objeto de controvérsia é muito pequeno em relação ao tamanho do montante de dinheiro da prestação de contas”. Dez milhões de reais não representa quase nada para este ilustre defensor público.

Aliás, esta ministra há poucos dias atrás lutou bastante para que os seus pares pudessem receber salários acima do teto do judiciário com a desculpa de que os valores que ultrapassavam aquele teto não eram considerados salários, mas sim gratificações.

É incrível como pode um defensor puúblico dizer uma asneira desta, quando vemos diuturnamente pessoas sendo presas e condenadas por roubarem pequenos produtos de valor ínfimo, tais como latas de leite, pacotes de arroz, etc em supermercados.

Portanto, vamos fazer de conta que somos felizes, que o Brasil é o país com a melhor distribuição de rendas do mundo, que não há pobreza, que todos são iguais perante a lei, e que temos o melhor presidente da República da América do Sul e quiçá do mundo.

O autor, Eurides Monteiro da Silva, é economista, ex-diretor da Faculdade de Economia da ITE