09 de julho de 2026
Política

Depoimentos trazem indícios para CEI

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Os depoimentos de responsáveis pelas administrações regionais, desde o início do governo Tuga Angerami (sem partido), à Comissão Especial de Inquérito (CEI), que investiga possíveis irregularidades com despesas na Secretaria das Administrações Regionais (Sear) e em gastos de publicidade no Departamento de Água e Esgoto (DAE), confirmaram, no mínimo, a existência de problemas com notas fiscais relacionadas à manutenção de veículos e equipamentos de informática.

A CEI ouviu ontem sete administradores e ex-administradores regionais, na tentativa de obter informações que ajudem nas investigações sobre as irregularidades. Alguns depoimentos chamaram a atenção porque confirmaram informações que o Jornal da Cidade já havia adiantado em edições anteriores, como o fato de viaturas serem enviadas para determinada oficina mecânica, localizada no Jardim Cruzeiro do Sul, mas com notas fiscais emitidas por outra empresa, e a falta de controle na entrega de 85 uniformes, adquiridos em 2005 pela pasta.

O envio de viatura para reparos em oficina no Jardim Cruzeiro do Sul foi confirmado em depoimento do diretor da regional Mary Dota, Luiz Antônio Colpani. Mesmo afirmando não ter conhecimento de esquemas para fraudar notas fiscais, o diretor confirmou que um dos veículos da administração regional foi enviado à oficina indicada pelo ex-diretor de auditoria da Sear, Haroldo de Oliveira Lima.

O JC verificou que na quadra dois da rua José Abraços Sobrinho funcionou uma oficina onde, segundo informações de moradores, foram levados veículos para consertos. A questão é que o estabelecimento não teria condições de emitir nota fiscal e não há registro de regularidade da empresa na Junta Comercial, o que amplia os indícios de que o expediente de “esquentar notas fiscais” também pode ter sido utilizado na Sear.

Colpani também destacou que houve uma tentativa de retirar o computador da regional para um “check-up” na Eletrônica Serrano, que pertencia ao ex-diretor da Vila Falcão Cláudio Serrano de Almeida, exonerado em setembro. “O Aristeu Botero Júnior foi até a regional em uma viatura da Prefeitura e disse que tinha recebido ordem do Haroldo para retirar o computador. Ele estava em companhia de um suposto filho do Cláudio Serrano. Mas eu não entreguei, achei que não estava certo”, disse.

Outro que confirmou o envio de computador para manutenção na Eletrônica Serrano foi o ex-diretor da regional Centro Cláudio Pereira Tessaimil. Segundo ele, a entrega do equipamento para manutenção também foi determinada por Haroldo de Oliveira Lima.

Negativas

Apesar de ter o nome de sua empresa citado várias vezes como prestadora de serviços de manutenção em equipamentos de informática, Cláudio Serrano negou que tenha realizado os serviços. A única tarefa que ele confirmou ter feito para a administração foi o conserto de um aparelho de fax, no início do mandato. “Na época eu não sabia que não poderia ter feito, por ser funcionário da Prefeitura”, disse.

No entanto, ele contestou as informações de outros diretores, e disse ter apenas prestado auxílio para servidores das regionais, que não tinham conhecimento em informática. “Se eles disseram que eu prestei serviço para a Prefeitura, terão que provar”, frisou.

Apesar da negativa de Serrano, o JC apurou que a administração municipal já conta com pelo menos um equipamento com etiqueta em seus componentes indicando a prestação de serviços pela eletrônica. O computador foi apreendido pelo Gabinete para investigação.

Uniformes

Outro assunto levantado pelo JC, que foi confirmado ontem nos depoimentos à CEI, foi a falta de controle sobre os uniformes dos funcionários das administrações regionais, além da comprovação de que na nota fiscal consta um fornecedor, mas na etiqueta, o nome do fabricante é outro. Nas notas fiscais dos uniformes consta o nome da empresa Marijós, mas o JC apurou que a etiqueta das roupas trazia o nome Santernense.

Em seu depoimento, o diretor da regional São Geraldo, João Antônio Gonçalves, responsável por assinar os cheques da Sear, afirmou que foram entregues 85 uniformes pela Marijós, que pertence, coincidentemente, à sua esposa, Nair Gonçalves. Sobre a diferença entre a empresa que consta na nota e a especificada na etiqueta do uniforme, Gonçalves afirmou que é apenas o fornecedor de matéria prima. “A confecção trabalha com vários fornecedores de tecidos, por isso consta o nome da Santernense na etiqueta”, argumentou.

Apesar da informação de que foram entregues 85 uniformes, os demais diretores não sabem dizer quantos foram destinados aos servidores. Neste caso, há conflito de informações, já que alguns diretores dizem que precisavam retirar o material na Sear, outros diziam que os uniformes eram entregues nas administrações regionais. Todos, entretanto, afirmam que não assinaram nenhum documento atestando a retirada dos mesmos.

Após o depoimento Gonçalves se recusou a falar com a imprensa.

A administração municipal ainda realiza levantamento de requisições de entrega dos uniformes para localizar os 85 uniforrmes pagos em 2005.