09 de julho de 2026
Articulistas

Boas festas; um brinde com água


| Tempo de leitura: 4 min

Embora o velho champanhe e, particularmente, o vinho tenham para mim um significado muito especial, para este brinde escolho a água.

Porque a água jamais briga: sempre descobre um meio de contornar os obstáculos, de descobrir passagens, de fluir livremente por qualquer fenda que a receba. Se o ambiente não foi degradado, a água corre tranqüila, sem provocar danos.

Hoje quando a maioria de nós pode obter água ao abrir a torneira, perdeu-se a reverência por ela: hidrogênio mais oxigênio. Deixamos de pensar no fato impressionante de que esses dois gases – um dos quais é mais leve do que o próprio ar – formam juntos uma substância inteiramente nova. A água não é apenas a soma das propriedades existentes nestes dois gases, pelo contrário, a combinação dos dois gera um conjunto completamente novo de propriedades.

Talvez, eu pudesse imaginar que o hidrogênio e o oxigênio, simplesmente, “não sabem quem são” até se encontrarem. E, assim como não conseguimos entender bem o hidrogênio e o oxigênio, sem conhecer sua capacidade de formar a água, não entendemos nenhum ser humano fora do contexto de seus relacionamentos. Juntos revelamos propriedades que jamais seriam evidentes se continuássemos separados.

Na água, o oxigênio tem uma carga ligeiramente negativa, ao passo que o hidrogênio contém uma carga ligeiramente positiva; esta característica permite que a água esteja sempre disposta a misturar-se, a se integrar com outras substâncias na perspectiva de criar algo diferente.

Eu penso que a combinação de hidrogênio e oxigênio indica uma verdade profunda acerca de nosso mundo: só por intermédio da conexão – da conexão com outros seres humanos, com a natureza, com o próprio planeta – é que entendemos e encontramos nossa natureza.

O hidrogênio, o menor átomo que existe, é leve e instável. Podemos interpretá-lo como um corpo etéreo, sociável, mas com a tendência de puxar para cima, tem o céu como objetivo. O oxigênio já é mais pesado, igualmente sociável, mas costuma voltar-se para baixo, na direção da terra. Com esse encontro, forma-se um elemento harmônico e mediador universal: a água, ponto de encontro entre o céu e a terra.

Um outro aspecto interessante desses laços eletroquímicos, é que a água – na temperatura e na pressão ambiente – aparece na forma líquida. Se as ligações entre os átomos de hidrogênio e oxigênio fossem, um pouquinho, mais fortes, a água se tornaria sólida nas condições em que estamos.

A água, que congelasse com tanta facilidade, impossibilitaria a vida na terra – pelo menos da forma como a conhecemos.

A água começa a se contrair quando esfria e, seria lógico pensar que continuasse a se contrair e o gelo resultaria mais denso do que sua forma líquida. Todos os líquidos se comportam assim e sua forma congelada é menor e mais compacta do que seu estado líquido. Mas, a água é única entre os líquidos da Terra. Ela se contrai até chegar aos 4°C, depois disso começa a se expandir e quando, finalmente, se congela, ocupa um espaço maior do que a água líquida.

Essa propriedade “esquisita” da água decorre das formas que as suas moléculas assumem nas diversas temperaturas. Em conseqüência disso é necessária uma enorme quantidade de energia para congelar a água, bem como para fervê-la.

Isto é um fato afortunado para a vida: todo o planeta está isolado de flutuações extremas e súbitas de temperatura pela resistência térmica da água do mar, que armazena e distribui grandes quantidades de calor. Ela nos dispõe de suas propriedades de resfriamento e aquecimento onde quer que sejam necessárias. Por isto, associo a água ao espírito de partilha. Quando compar-tilhamos conseguimos redirecionar nossa trajetória de vida.

Uma das mais notáveis propriedades da água, no entanto, é sua capacidade de receber e transmitir as características das substâncias com as quais entra em contato. Assim, a água conservada num recipiente de plástico acaba ficando com um sabor diferente da água em vidro ou metal.

Em conseqüência de sua sensibilidade incomum, a água capta vibrações de todos os tipos: do cosmo, de outros planetas, da lua e de outras substâncias mesmo que não estejam em contato direto com ela. A água é atingida pelas informações químicas contidas nas mãos, pelos elementos ou vestígios de elementos que podem estar, fisicamente, presentes na pele. A água, também, é atingida pelo próprio pulso da pessoa e por seus padrões rítmicos.

Digo isso porque, não podemos nos esquecer que, vivemos na era da física quântica no qual o pensamento humano interage com o mundo ao nosso redor, no qual a mente consegue afetar a matéria.

Por isso precisamos da transparência da água e de sua capacidade de sentir as coisas sob o ponto de vista dos outros. Só com a água e agindo assim como ela a vida garantirá seu futuro.

Saúde e paz a todos os leitores do JC. Tintim!

O autor, Paulo Cezar Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp-Bauru