O aumento de R$ 30,00 no salário mínimo, que começa a valer a partir de abril do ano que vem, vai representar mais opções de comida na mesa da empregada doméstica Vera Lúcia Lopes Forte. De acordo com ela, que ganha R$ 350,00 por mês, o reajuste fará diferença, principalmente, na hora das compras de supermercado.
“Será possível variar mais a comida, inclusive com carne. Acho que o aumento será sentido na panela”, comenta. Para Lourdes Purcini Tavares, que também trabalha como empregada doméstica, o novo valor do mínimo, de R$ 380,00, vai ser mais útil nas despesas com o filho de 2 anos. “Pretendo comprar mais fraldas e leite para ele”, ressalta.
A expectativa das empregadas faz sentido, segundo pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Conforme o estudo, o trabalhador poderá ampliar o peso da cesta básica. Será possível, por exemplo, comprar 20 quilos a mais de pão francês e dois quilos a mais de carne e feijão.
Para o economista Caio Haffner, embora o aumento de R$ 30,00 não possa ser considerado expressivo e ainda esteja bem distante do ideal, as pessoas que sobrevivem com apenas um salário mínimo, de fato, sentirão um impacto positivo no bolso.
“Para quem ganha mais que um salário mínimo, esse aumento parece irrisório. Porém, o trabalhador que só pode contar com esse dinheiro, certamente terá a possibilidade de fazer alguma coisa a mais, seja no supermercado, seja no comércio em geral”, observa.
Haffner avalia que o grande problema do mínimo no Brasil é o patamar do salário, considerado um dos mais baixos do mundo. “Infelizmente, não se pode aumentá-lo de forma repentina porque, fatalmente, as contas da Previdência quebrariam”, completa.
Na opinião do economista e professor Reinaldo Cafeo, a relação entre o reajuste e o poder aquisitivo do trabalhador tem de ser analisada com mais ponderação. “O aumento do salário mínimo só permitirá um maior poder de compra se o preço dos produtos da cesta básica não subir. Caso contrário, ninguém vai sentir diferença”, analisa.
O assunto é mesmo polêmico e divide opiniões. O contador e professor Leandro Santile diz que o reajuste do salário mínimo tem de ser analisado sob dois prismas. Como o aumento foi maior que a inflação, ele destaca que houve ganho real no vencimento. “Esta é a visão otimista”, completa.
A realista, segundo Santile, é que o valor, analiticamente falando, é extremamente defasado. “Embora tenha sido maior que a inflação, não deixou de ser um reajuste ridículo. Acredito que o mínimo deveria estar no patamar de R$ 700,00. O impacto seria vantajoso para todos os lados”, defende.
O contabilista diz que tem a consciência de que a medida geraria mais impostos, arrecadação e, conseqüentemente, um déficit público grande com a Previdência. Mas sugere uma solução. “O caminho que vejo é a criação de um salário previdenciário para desvincular o mínimo do valor da aposentadoria. Esse procedimento seria adotado até o governo conseguir equacionar as contas.”