Na medida em que se aproxima o final do ano, o cotidiano da cidade se altera de um jeito todo especial: as igrejas ficam cheias de fiéis, as casas cobertas de enfeites coloridos e as salas de refeições repletas de gente. É um tempo de fraternidade e amor ao próximo, bem à moda das antigas cantigas natalinas.
Nesta época, marcada pelos “amigos secretos” e pelas festas de confraternização, a rotina do comércio também se altera. Em Bauru isso pode ser percebido de maneira mais nítida, já que a cidade, cuja economia é fortemente ligada ao setor de serviços, é o principal centro comercial da região.
Por conta dessa vocação, a cidade é “invadida” por consumidores de toda parte - tanto de Bauru quanto de outros lugares da região - e tem a oportunidade experimentar, por alguns dias, o “gostinho” de ser metrópole.
O trânsito fica caótico - sobretudo nos finais de semana - e faltam vagas nos estacionamentos; os ônibus circulam sempre lotados e os taxistas não dão conta de tantas corridas que têm de fazer. Nas ruas do Centro, sempre apinhadas de gente, falta espaço para circular.
Enquanto percorrem o Calçadão, principal área comercial da cidade, à procura de novidades em roupas, utilidades domésticas e eletroeletrônicos, os consumidores acabam fazendo a alegria não só dos grandes lojistas, mas também dos pequenos vendedores que sobrevivem do comércio ambulante.
Para Reinaldo Costa Queiróz,a chegada de dezembro representa um verdadeiro milagre: é que nesse período ele costuma registrar uma aumento considerável na venda da barraca da lanches que mantém na praça Rui Barbosa.
No período de final de ano, Queiróz comercializa diariamente 500 sanduíches, número bastante superior aos 80 que costumam sair em dias normais. O sucesso é grande, e não por acaso ele fica o ano todo esperando com ansiedade a chegada do Natal.
Toda essa alegria tem preço: para incrementar as vendas, a maioria dos “ambulantes” é obrigada a acompanhar os horários do comércio. Como nos últimos dias as lojas têm ficado abertas das 9h às 22h, a jornada de trabalho torna-se extremamente cansativa, tanto que nem todo os vendedores de rua estão dispostos a se submeter a ela.
Alguns até fazem algum esforço: Fabrício Genaro, que comercializa óculos de sol numa barraca localizada no cruzamento da rua Treze de Maio com a avenida Rodrigues Alves, bem que tentou, mas não foi capaz de permanecer trabalhando até tarde. “O máximo que consegui ficar foi até as 20h. As vendas não andam muito boas, por isso o trabalho extra não está valendo à pena”, diz.
Lucrativo para alguns, cansativo para outros, o Natal gera expectativas que extrapolam a esfera comercial. É nas periferia que as esperanças criadas pela data encontram maior ressonância. Isto porque as entidades assistenciais se mobilizam, os voluntários arrecadam alimentos e as empresas fazem doações, tudo para que os moradores das áreas carentes tenham a chance de festejar o Natal com um pouco de dignidade.
Um clima de solidariedade arrebata a cidade e, de repente, todos os problemas sociais do mundo parecem encontrar solução na fórmula da fraternidade... Mas vem o novo ano, e a “corrente do bem” acaba se esfacelando, para reaparecer somente no próximo dezembro.
É o Espírito de Natal, que tem época certa para brotar e secar no coração dos bauruenses. “O ideal seria que as pessoas se ajudassem umas às outras durante o ano inteiro. Mas como ainda não é possível isso acontecer, temos de tentar fazer o máximo pelos mais pobres nesse curto período em que todo mundo se mostra mais solidário”, pensa o microempresário Divino Ribeiro, morador do Parque das Nações.