09 de julho de 2026
Internacional

Neil Gaiman faz fábula sobre o medo

Por Eduardo Simões | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Premiado autor da “graphic novel” “Sandman”, o escritor e quadrinista Neil Gaiman “roubou” da própria filha a história de “Os Lobos Dentro das Paredes”, livro infantil que a editora Rocco acaba de lançar. Aos 4 anos, a menina teve um pesadelo, começou a gritar que havia lobos nas paredes da casa e que eles haviam saído.

“Tentei persuadi-la, mas ela insistiu, falou que poderia me mostrar o lugar de onde eles tinham vindo. Pensei que daria uma ótima história e roubei a idéia. Era algo mágico”, disse Gaiman.

Depois de matutar ao longo de um ano sobre o sonho da filha, Gaiman criou uma frase enigmática e aterrorizante: “Se os lobos saírem de dentro das paredes, está tudo acabado”. A sentença é dita toda vez que Lucy, personagem principal do autor, diz à família que há criaturas nas paredes, pois ela está escutando ruídos “furtivos, rastejantes, amarrotados”.

Na fantasia de Gaiman, com ilustrações belas e sinistras de Dave McKean, seu recorrente colaborador, os lobos saem das paredes e a história assume um caráter fabular: de menina assustada e desacreditada, Lucy acaba virando heroína. “Objetivamente, poucas coisas são assustadoras. E é disso que trata o livro. De estar assustado com algo e mesmo assim enfrentar”, diz Gaiman, que refuta a idéia de alegorias ou metáforas para ameaças do mundo real, em seu livro.

“Se você escreve pequenas alegorias sobre coisas que estão acontecendo no mundo, como guerra ou terrorismo, elas duram pouco. Quero questões maiores, medos primários. Quando a guerra acabar, o livro não terá mais sentido.”

Para evitar a decepção de seu amigo e colega de ofício Alan Moore, com adaptações de sua obra, Gaiman está à frente das versões para o cinema de “Stardust”, “Coraline” e “Death: The High Cost of Living”, que irá dirigir. “Alan se afastou dos projetos, e os filmes foram todos ruins. Estou tentando saber se posso ajudar me envolvendo”, afirma ele, que se diz sem pressa para ver nas telas uma versão de “Sandman”, seu maior sucesso.

“Se surgir um diretor, para quem ‘Sandman’ for tão importante quanto ‘O Senhor dos Anéis’ foi para Peter Jackson, então ótimo.” Gaiman prefere, no entanto, escrever roteiros não baseados em suas obras. Caso da adaptação para o poema épico “Beowulf”, que estréia em 2007.

“Sempre acontece algum estrago. E se a obra é sua, dói mais. Por sorte, o cara que escreveu ‘Beowulf’ já morreu há 1.300 anos, e não vai se importar se eu tomar algumas liberdades”, brinca o escritor, novamente interessado em fábulas. “O que mais me fascina em ‘Beowulf’ é que se trata de uma história sobre conseqüências. Sobre como as coisas que você faz quando é jovem têm reflexo quando você fica mais velho.”

Altos e baixos

“Beowulf”, o clássico da literatura anglo-saxã que foi adaptado para o cinema por Neil Gaiman, foi uma das maiores inspirações de outro épico: “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien (1892-1973). O escritor e sua amizade com outro mestre da literatura de fantasia, C. S. Lewis (1898-1963), autor de “As Crônicas de Nárnia”, são objetos de estudo do livro “O Dom da Amizade”, da editora Nova Fronteira.

Com autoria de Colin Duriez, o título aborda, entre outras coisas, os anos de formação dos dois autores, seu encontro, em 1926, na Universidade de Oxford, e suas experiências com a Primeira Guerra, para analisar as influências que um teve nas trajetórias pessoal e profissional do outro. Tolkien reputava ao apoio de Lewis sua persistência para concluir “O Senhor dos Anéis”. E Lewis, um ateu, teria se interessado pelo apelo “intelectual e imaginativo” da história cristã, por sugestão de Tolkien.

Duriez revela que a “conversão” de Lewis ao cristianismo, expresso na figura messiânica do leão Aslan, de “As Crônicas”, foi curiosamente o que acabou minando a amizade dos dois. Tolkien não aprovava o uso da literatura como instrumento de evangelização, de que Lewis se tornou adepto.