08 de julho de 2026
Cultura

Migalhas do conhecimento

Adriana Fricelli com Agência Folha
| Tempo de leitura: 4 min

Foi apenas um ano substituindo professores efetivos em cerca de dez escolas estaduais de Bauru. Mas o pouco tempo foi mais do que suficiente para que a jornalista e historiadora Élida Yonamine se chocasse diante do abandono das escolas públicas. Suas anotações à frente das salas de aula serviram de base para o livro “Diário de Classe de uma Professora Eventual: uma desventura nas escolas públicas estaduais”, recentemente lançado na cidade.

Antes de abrir o livro, ela já avisa: “esta obra não traz nada de novo”. E, logo nas primeiras páginas, isso fica nítido. No diário de classe compartilhado com os leitores e complementado com reflexões pessoais e reportagens veiculadas em jornais, Élida descreve o comportamento na maioria das vezes arredio dos alunos, o analfabetismo funcional, o cansaço do corpo docente e a precariedade da estrutura física das instituições e dos materiais didáticos.

As primeiras críticas da historiadora são sobre sua própria função exercida durante um ano: professor eventual. Na ausência do profissional efetivo, ela era chamada com pouco tempo antes do início da aula, às vezes para tratar de disciplinas das quais ela mesma não tinha domínio, sem ter acesso sequer ao material usado pelo professor.

Diante desse contexto, Élida se lembra de entrar na sala de aula e ficar dez, 15 minutos tentando inutilmente que alguém a ouvisse. Mas logo ela notou que sua função não era dar continuidade ao trabalho do outro colega. “O lema era: ‘segure o aluno dentro da sala de aula’. Se conseguisse isso, estava ótimo”, recorda.

No livro, Élida também faz duras críticas ao projeto pedagógico. “A educação precisa se aproximar da realidade do aluno”, aponta. Um exemplo dado por ela é ensinar a matemática aplicada no bairro onde a criança mora. “Se você perguntar quantas árvores têm na praça do bairro, além de contar, a criança vai reparar no espaço onde vive e, em contato com realidades dos outros alunos, poderá perceber desigualdades e reivindicar por direitos iguais”, exemplifica.

Quanto às razões para este estado de “descaso com a escola pública”, como a autora mesma define, as 168 páginas do livro não seriam suficientes. Élida também não se arrisca a julgar alunos, professores e poder público. “Eu não aponto culpados, nem reconheço vítimas”, diz. Para ela, mais importante do que isso é trazer à tona a discussão para que toda a sociedade se comprometa novamente com a educação.

“Parece que ninguém vê que só com o conhecimento o mundo poderá ter uma saída”, desabafa. E, para finalizar, Élida cita uma frase de John Ruskin que abre seu livro: “Reformemos nossas escolas e não teremos que reformar grandes coisas em nossas prisões”.

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Frustração

“...as mãos, que eram leves e soltas, (...) agora tremem, muitas vezes por pânico de seus próprios alunos”. A frase extraída do livro da historiadora e jornalista Élida Yonamine sintetiza o sentimento de frustração compartilhado por muitos professores e que a levou a escrever a obra “Diário de Classe de uma Professora Eventual”.

Formada em jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em 1991, e em história pela Universidade do Sagrado Coração (USC), em 2000, Élida se inscreveu na Diretoria de Ensino (DE) de Bauru “com um sentimento de luta e determinação”, recorda.

Durante o ano de 2001, ela freqüentou mais de dez escolas estaduais de Bauru, distribuídas em bairros nobres e periféricos, dando aulas para alunos de 5.ª a 8.ª série do Ensino Fundamental até o terceiro ano do Ensino Médio. Mas, logo nos primeiros dias como professora, a ilusão de transformar o mundo foi sendo soterrada por surpresas, lamentáveis surpresas.

Como a do dia em que um aluno urinou no chão da sala de aula, ou outra em que vários estudantes ficaram no telhado da escola com camisetas amarradas na cabeça, “como uma rebelião de presídios”; ou então, quando, munidos de mangueiras, impediram os professores de entrar nas salas de aula.

Inconformada diante do cenário repetitivo, ela e mais alguns professores recorreram à DE para reclamar. Como resposta, lhes foi prometido o envio de um supervisor, que nunca chegou. Cansada, Élida se afastou temporariamente da função de professora e organizou suas anotações diárias para escrever o livro, num trabalho de dois anos. Com produção gráfica da editora bauruense Canal 6, a obra pode ser encontrada nas livrarias Jalovi ou então pelo e-mail: elida.terezinha@terra.com.br