09 de julho de 2026
Articulistas

Tragédia permanente no trânsito


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O balanço dos acidentes nas estradas brasileiras durante o Natal, divulgado pela Polícia Rodoviária Federal, entre 0h de sexta-feira e 24h de segunda-feira, aponta para cerca de 90 mortos, 1,21 mil feridos em mais de 1,74 mil acidentes. Em 2005 foram 99 mortos, 1,18 mil feridos em 1,63 mil acidentes. Considerando os números absolutos não houve grandes alterações, porém esta estatística não deixa de ser trágica! Ela se repete cotidianamente sem que a sociedade brasileira se sensibilize com este brutal problema. Na Operação Natal, mais de 20 mil motoristas foram multados, sendo que pelo menos 5 mil por excesso de velocidade. O comportamento inadequado de motoristas, condutores e pedestres ainda é alarmante. As conseqüências podem ser analisadas pelos recentes dados publicados pelo Denatran sobre os custos dos acidentes nas rodovias brasileiras.

O Brasil gasta, anualmente, 22 bilhões de reais com os acidentes de trânsito nas rodovias, que corresponde a 1,2% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Neste estudo, o IPEA-Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, executor da pesquisa, considerou os custos com saúde, com remoção e traslado de feridos e mortos, com danos e remoção de veículos, com perda de cargas e com os atendimentos feitos pelas polícias rodoviárias, além de danos a propriedades públicas e particulares. Foram considerados os anos de 2004 e 2005. Em média, são gastos R$ 1.040 com cada cidadão que sai ileso de um acidente, R$ 36.305 com cada ferido e R$ 270.165 com cada morto. Ainda segundo a pesquisa, os atropelamentos são uma das principais causas de morte em rodovias. Nas federais, uma pessoa morre a cada 3,4 atropelamentos, e há um acidente a cada duas horas. Dos quatro mil atropelamentos anuais em vias federais, mais de 75% ocorrem nos estados de São Paulo, Paraná, Minas, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Em termos absolutos, em 2004, ocorreu uma média de 307 acidentes por dia, cerca de 13 acidentes por hora nas rodovias federais. Esses acidentes envolveram, em média, 1,7 veículos e 4,07 pessoas. A redução desse número em 2005, relativamente ao ano anterior, foi de 2,4%, que não se fez acompanhar da redução de mortos no local do acidente. Houve, pelo contrário, um aumento de 3,8%, demonstrando que os acidentes apresentaram uma maior gravidade, mesmo que a quantidade de pessoas envolvidas tenha reduzido em 9,3%. Embora tenha havido uma pequena redução dos acidentes de um ano para outro, o número de mortos nas rodovias federais cresceu. O índice de mortos a cada 1.000 acidentes cresceu de 90,6 para 95,0, entre 2004 e 2005. Estão incluídas nesse índice as mortes ocorridas posteriormente ao acidente. Esse é um indicativo claro da necessidade de adoção de políticas públicas que venham a priorizar a aplicação dos recursos (financeiros e humanos), na redução da gravidade dos acidentes. Os acidentes com motocicletas guardam proporções semelhantes aos atropelamentos. Embora eles tenham representado 10,8% de todos os acidentes, causaram 15,2% de todas as mortes, no ano de 2004. Aproximadamente 60% dos acidentes ocorridos nas rodovias federais acontecem à luz do dia, com tempo bom e em pistas simples. Cerca de 28% dos acidentes de trânsito nas rodovias federais, em 2004, envolvem um veículo com cargas. Em Bauru, o panorama da gravidade na ocorrência de acidentes não é diferente. Em 2006, 27 pessoas já perderam a vida nos acidentes. Desses, 14 são motociclistas (os maiores desrespeitadores das regras). A velocidade excessiva, o desrespeito às regras de trânsito, o uso de celular ao volante e, principalmente, as bebidas alcoólicas são os principais fatores associados aos acidentes. Apesar disso, é freqüente a mídia e algumas pessoas tentarem denegrir os órgãos responsáveis pelo trânsito, imputando-os como “indústria de multas”. Esta geração não foi educada para o trânsito, portanto, não se espera que o seu comportamento seja tão diferente do que é. Assim, somente uma ação repressiva para mitigar suas atitudes.

Espera-se, por outro lado, que esses mesmos órgãos responsáveis pelo trânsito possam desencadear, de imediato, ações para uma efetiva educação no trânsito, começando pelos escolares dos primeiros anos, atingindo, em um segundo momento, a todos os demais. Só assim, teremos cidadãos cônscios de seus deveres, inclusive no trânsito, tal como ocorre em países desenvolvidos.

Archimedes A. Raia Jr, é engenheiro, professor, mestre e doutor em transportes e pesquisador do Núcleo de Estudos em Gestão e Comportamento no Trânsito da Universidade Federal de São Carlos raiajr@power.ufscar.br