O fantasma do desemprego está assustando menos o brasileiro. Pesquisa encomendada pelo Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) revela que o assunto, embora ainda seja uma das principais inseguranças das pessoas, tem preocupado menos os trabalhadores que estão na ativa.
Segundo o levantamento, realizado pela Ipsos, a preocupação do brasileiro em perder o emprego caiu de 29% em 2005 para 26% neste ano. O estudo ouviu mil pessoas em 70 cidades e nove regiões metropolitanas do País.
“Não penso nisso. Trabalho há 14 anos no mesmo serviço e acho difícil acontecer, porque a função que desempenho exige qualificação. Além do mais, a empresa já passou por situações difíceis e ninguém foi demitido”, comenta Edivaldo de Azevedo, 37 anos, que trabalha como coordenador de atividades externas dos Correios em Bauru.
O empresário Airton Caetano, que possui um empreendimento do ramo de informática na cidade, acredita que o medo de perder a vaga de trabalho está deixando de existir, principalmente no mercado que exige qualificação do empregado.
“Hoje, especialmente nas empresas que trabalham com tecnologia, existe todo um trabalho de treinamento para cada funcionário. Para essas firmas, perder um funcionário é muito complicado”, observa.
Para Caetano, as empresas que necessitam de mão-de-obra especializada prezam mais por evitar demissões do que aquelas que oferecem vagas que não exigem tanta qualificação.
“Acho que essa pesquisa é uma realidade quando a gente está tratando de um mercado um pouco mais diferenciado, específico”, acrescenta.
Marcos Renato Lourenção, gerente de uma rede de supermercados que emprega cerca de 400 pessoas em Bauru, entende que o temor da demissão é maior entre os trabalhadores que ainda possuem pouca experiência no ramo em que atuam. “Aqui na empresa, essa apreensão quase não é sentida. Como a maioria dos empregados já tem um tempo de casa, a segurança quanto ao emprego é maior. A experiência proporciona isso”, comenta.
De acordo com a pesquisa, o medo de sair do mercado de trabalho diminuiu entre as classes C (de 34% para 30%), D e E (de 29% para 25%). Em contrapartida, nas classes A e B foi registrado aumento na preocupação com a perda do emprego. De 17% em 2005, o índice saltou para 22% neste ano.
O diretor-adjunto do Ciesp em Bauru, Jair Manfrinato, avalia que as esferas mais abastadas da sociedade apresentam mais preocupação por conta do achatamento da classe média que está ocorrendo no País.
“Quem paga mais carga tributária é a classe média. Por isso o temor é maior entre os níveis A e B. É natural que essas pessoas tenham essa preocupação”, observa.
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Sem motivos
Na visão do diretor do Departamento de Ação Regional (Depar) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) em Bauru, José Luiz Miranda Simonelli, a pesquisa não espelha a realidade. Para ele, os dados são resultado de um universo onde todas as pessoas estão empregadas em empresas consolidadas. “Se você mudar o universo, o resultado será outro”, ressalta.
Simonelli destaca que a balança comercial deste mês é um bom exemplo para confirmar sua avaliação. Segundo ele, dezembro registra o maior volume de importação do Brasil nos últimos anos. “Estamos importando muitos produtos acabados e intermediários, e exportando commodity. O País encontra-se no ápice da importação e num declínio de exportações de produtos manufaturados, que é o que emprega”, salienta. “Não vejo sentido nesse resultado”, completa.
Jair Manfrinato, diretor-adjunto do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, também acredita que não há motivos para o brasileiro se despreocupar com o desemprego.
“Houve um acréscimo de empregabilidade no nível de emprego nos últimos meses, mas no ano houve queda”. Para Manfrinato, a pesquisa reflete uma situação de momento por conta dos empregos temporários gerados pelas festas de fim de ano.
“No final do ano é natural que aumente a demanda de empregos, fator que está refletindo na pesquisa”, acrescenta.