Conhecida como saião, coirama, folha-da-costa e folha-da-fortuna, uma planta ornamental começa a despontar como alternativa barata para o tratamento da leishmaniose visceral. A pesquisa, desenvolvida pela cientista, biomédica e professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), Bartira Rossi Bergmann, já mostrou resultados na cura de leishmaniose cutânea - que atinge a pele. Agora, ela pesquisa o uso da planta contra a leishmaniose visceral, que neste ano matou quatro pessoas em Bauru.
“O saião faz com que o organismo consiga destruir a Leishmânia (parasito que causa a leishmaniose). É como se fosse um estimulante do sistema imune. Não age diretamente no parasito. Mas faz com que as células infectadas passem a produzir uma substância microbicida, que destrói a Leishmânia”, explica a pesquisadora.
O militar Emílio Carlos Torres dos Santos, do Batalhão de Infantaria Pára-quedista, fez o teste clínico. Em um treinamento do Exército na Amazônia, ele contraiu leishmaniose cutânea. Suas feridas diminuíram com o uso da planta, que ele mastigava todos os dias.
“A nossa idéia é fazer extrato e cápsulas para o paciente tomar (como comprimidos). Mas tem que ter a dosagem correta. Com ele (Emílio), foi um teste. Ele estava lá no Pará, não tinha o material próprio em cápsulas. Então nós mandamos as folhas por correio, congeladas”, informa Bergamann.
De acordo com ela, a quantidade de folhas a ser consumida foi calculada. Elas eram trituradas e ingeridas como salada. O caso clínico foi publicado na Phitotherapy Research, revista inglesa.
“Nós temos dados experimentais que ele não é restrito à leishmaniose cutânea. Pode servir também para a visceral. Para cutânea, as pesquisas estão mais avançadas. Tem potencial também para ser utilizado na visceral. Mas ainda não temos confirmação com testes clínicos”, acrescenta Bergmann.
Com relação à visceral, os efeitos vêm sendo testados com camundongos e hamsters. “Nós estamos tendo uma série de dificuldades para implantar esse estudo clínico. Dificuldade com logística mesmo. Os médicos, responsáveis por centros de referência, têm os estudos deles já em andamento, com medicamentos que eles estão testando. A gente não consegue os pacientes”, comenta a pesquisadora.
Atualmente, o trabalho de Bergmann se concentra na padronização do saião, cujo plantio é bastante simples. “A composição de um fitoterápico pode variar muito. Por ser uma planta, dependendo de onde cresce, ela pode ter composições químicas diferentes, por causa do solo, do clima. A gente está tentando padronizar”, conclui.
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Saião
O saião, popularmente conhecido como folha-da-fortuna, já é usado para tratamento de úlceras e como cicatrizante. É encontrado em vários lugares do Brasil e nas Américas. Mas a espécie Kalanchoe pinnata (nome científico) é originária da África.
Ela se adaptou ao Brasil, embora ainda seja usada em cerimônias afro-brasileiros como planta medicinal. A planta já é considerada pelos pesquisadores como brasileira, apesar de vir de fora, informa a cientista Bartira Bergmann. Ela ganhou o prêmio patrocinado pela Usiminas para pesquisas sobre o valor medicinal da flora brasileira.
Segundo Bergmann, A Kalanchoe pinnata estimula o sistema de defesa do organismo a combater o causador da leishmaniose. Com o saião, o óxido nítrico presente no corpo humano é ativado e mata a Leishmânia, deixando inativa a célula que iria provocar a evolução da doença.