09 de julho de 2026
Política

Vicentinho: ‘Deixem o Lula descansar’

Por Alceu Luís Castilho | Correspondente do JC em Brasília
| Tempo de leitura: 7 min

Entre os 513 deputados eleitos, ele é quem tem a origem mais parecida com a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu amigo. Foi seu sucessor no Sindicato dos Metalúrgicos do Grande ABC e se projetou como presidente da Central Única dos Trabalhadores. Reeleito para a Câmara, Vicente Paulo da Silva (Vicentinho) (PT-SP) toma muito cuidado nas respostas para não fazer críticas ao governo ou ao PT. “Quem faz isso aparece facilmente na mídia”, alfineta. Mas, em relação ao partido, sua crítica aparece de outro modo, pela forma propositiva. Ao defender o retorno às bases e aos núcleos, ele critica o distanciamento da cúpula em relação ao povo, as campanhas milionárias (com práticas como compra de parlamentares) e até diz que teme pela destruição do PT, pela aproximação com a lógica de outros partidos. Vicentinho conta que teve raiva do Delúbio e do PT por ter tido uma campanha pobre na disputa pela prefeitura de São Bernardo do Campo. E propõe a adoção interna do orçamento participativo. Dividido nesta legislatura entre a causa negra e a sindical, ele identifica racismo entre parlamentares e declara que quer se afirmar como o “deputado dos trabalhadores”. Confira a entrevista dada ao Jornal da Cidade:

Jornal da Cidade - O senhor já tem um levantamento da nova “bancada negra” eleita para a Câmara?

Vicente Paulo da Silva (Vicentinho) - Ainda não. Só sei que no Estado de São Paulo a gente teve um crescimento de 100%, pois eu era o único e agora foi eleita a companheira Janete Pietá (PT).

JC - O fato de o senhor ter abraçado a questão racial não o distanciou da origem sindical?

Vicentinho - Continuo sendo o deputado dos trabalhadores. É o que quero nesta gestão. A questão racial aprendi também no sindicato. Quando eu era presidente a gente fez uma vez uma vigília contra a discriminação racial. Em 1995 fizemos na CUT uma marcha, de São Paulo a Aparecida. Essa sensibilidade, dedicação, é baseada numa concepção sindical que foi implementada quando entrei na CUT, de sindicato cidadão, que não faz só defesa das questões econômicas, mas da vida: direitos das mulheres, portadores de deficiência, povo negro. A luta não pode ser só por salário.

JC - Existe racismo no Congresso?

Vicentinho - Existe. Em qualquer lugar. De vez em quando vejo alguns pronunciamentos, algumas frases que, se não demonstram que a pessoa é racista, demonstram que ela é igual a qualquer pessoa do Brasil. Piadas, brincadeiras, a gente vê a cada esquina, a cada momento.

JC - O senhor ouve piadas aqui?

Vicentinho - Não, porque não contam para mim. Mas a gente fica sabendo. A gente ouve brincadeirinhas.

JC - O senhor não se refere somente a palavras politicamente incorretas, como denegrir, etc...

Vicentinho - Não, comentários mesmo. “Aquele negro”... O racismo contaminou a sociedade. Tem na igreja, na escola, no Congresso, como tem o machismo. A grande prova, a marca que de fato a questão do racismo é premente, eloqüente no Congresso é quando você não consegue aprovar o Estatuto da Igualdade Racial, não consegue aprovar as cotas.

JC - O fato de o governador Cláudio Lembo, do PFL, ter consagrado a expressão “elite branca” não indica que o PT e a esquerda perderam o discurso?

Vicentinho - Continua sendo o tema de nosso partido. A esquerda como um todo não é sensibilizada pela questão social. Entendem que a panacéia vem quando se discute todas as questões, a melhoria da situação do povo brasileiro. Nesse contexto é que viriam também os direitos do povo negro. Pensamos diferente: damos destaque ao povo negro, sem esquecer as questões sociais. Nem vejo contradição entre cota social e cota racial. Mas a esquerda mais clássica não assume o combate ao racismo.

JC - Por quê?

Vicentinho - Acho que falta de sensibilidade mesmo. Que tese é escrita pelos grandes escritores da União Soviética, Europa? Não se vê nada que fale dessa questão. Talvez quem escreveu não viveu essa situação. O Brasil tem a própria história.

JC - A gente teve Milton Santos, etc

Vicentinho - No Brasil é outra história. Historiadores, educadores. Milton Santos, Florestan Fernandes, outros escreveram. Até Fernando Henrique Cardoso escreveu.

JC - Sobre sindicalismo: muda alguma coisa no segundo governo Lula?

Vicentinho - O sindicalismo nos últimos anos tem tido maturidade. Não abre mão de sua base, mas olha onde é preciso conquistar. Não abre mão de fazer greve, mas se tem um dirigente que é oriundo do movimento sindical e aprova teses que são reivindicações do movimento sindical, então sabe que é bom, uma boa coincidência. A luta é salutar e se vai continuar lutando.

JC - No que o senhor diverge do ministro Marinho e do governo Lula?

Vicentinho - Em nada. Somos do mesmo sindicato, da mesma história, da mesma luta.

JC - O senhor tem contato estreito com o governo Lula?

Vicentinho - Sim, temos uma relação de amizade. Nos últimos 50 dias nos encontramos três vezes. Eu é que tenho que compreender que ele é o presidente da República. Tem o papel e a história dele. Até queria aproveitar para dizer que, quando o Lula vai para a casa dele, ele quer descansar. Quer ficar com a sua família. Então algumas pessoas que se colocam como amigos, ele, por uma questão de educação, recebe, mas se sente mal com aquilo. Porque quer descansar. O Lula não tem mais o tempo que a gente tinha. Não tem mais o tempo para tomar cerveja, para conversar, brincar.

JC - Quanto ele ficou irritado com a história do dossiê?

Vicentinho - Sei que ele ficou chateado e continua chateado. Conversei com ele ainda ontem. Quer esclarecimentos, se sentiu realmente traído, que as pessoas não estavam falando a verdade para ele.

JC - Em relação ao seu perfil, o senhor tem toda a trajetória na CUT, é depois do Lula o mais conhecido egresso dos sindicatos metalúrgicos. Mas teve uma atuação discreta em sua primeira legislatura. Como está seu trânsito no partido?

Vicentinho - No Congresso não vou dizer que é uma atuação discreta. Em termos de mídia, sim. Minha atuação foi aprovada pelo Diap, por quatro anos consecutivos. Fui o deputado que mais projetos de lei apresentou no Congresso. Foram 45 até hoje (a entrevista foi realizada no fim de novembro). Fiz mais de 310 pronunciamentos na Câmara. O problema é que para aparecer mesmo, na mídia, ou tem de falar mal do Lula ou do PT. É uma maneira de aparecer. Você se destaca porque fala mal. Ou tem de ser líder da bancada, líder do governo. Ou então você é relator de um projeto importante, que tenha muito repercussão. Quando minha atuação começou a repercutir na mídia, porque era relator da comissão da reforma sindical, veio a maldade do mensalão. Aí parou o debate sindical. Quando ele vier, devo aparecer, muito.

JC - Mas não lhe faltou atrevimento para pleitear esses cargos?

Vicentinho - Costumo respeitar os que já estão. Não queria ousar enfrentar vários companheiros. Aqui somos exatamente iguais. Temos deputados importantíssimos. Um dia vai acontecer.

JC - A CUT criticava muita coisa na Força Sindical que hoje pratica, como os grandes shows, que seriam coisa de pelego.

Vicentinho - Não me lembro se foi dito que show era de pelego. Só dizia que era um momento de conscientização. Depois que eu saí da CUT foram realizados esses shows. Também pelo pragmatismo, de juntar gente. O importante nesse caso é analisar se esse ajuntamento dos shows está trazendo efeitos em termos de conscientização.

JC - Os sindicatos estão fora do financiamento eleitoral, com as empresas doando milhões, inclusive para a esquerda. Não há uma distorção aí?

Vicentinho - O sindicato sempre defendeu autonomia em relação aos partidos políticos. Não é só a lei que proíbe, é uma questão nossa. O ideal é garantir o financiamento público de campanha, sem um único centavo privado.

JC - Hoje a gente tem deputados petistas eleitos com milhões. Não se aderiu demais ao sistema?

Vicentinho - Tem de analisar cada caso. No meu caso teve empresas que não aceitei dinheiro delas. Como vou aceitar dinheiro de empresa fabricante de armas, se tenho projeto de lei que aborda a questão da paz, do combate à droga, à violência? Como aceitar de empresas de bebida, se tenho projeto que educa a juventude para não beber? Por outro lado tem empresa que já me ajudou e não quis ajudar nesta campanha. Por exemplo, empresa de ônibus, porque fiz projeto que proíbe motorista ser motorista e cobrador ao mesmo tempo. O empresário que apóia sabe que está apoiando alguém que é independente.