08 de julho de 2026
Geral

‘A prefeitura é uma grande ilusão’

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 9 min

Bauruense da gema, Dudu Ranieri, 65 anos, tem duas grandes paixões. As duas herdadas do pai, José Ranieri. Além do gosto pela educação e pela política, ambos dividem o privilégio de terem sido prefeitos de Bauru, mesmo que por um curto período. Esses momentos, no entanto, não trazem boas recordações a Dudu. A ponto de ele afirmar que não pretende mais voltar à prefeitura.

Foram apenas 21 dias em 2003, quando assumiu interinamente após a cassação do ex-prefeito Nilson Costa. Parece pouco, mas para Dudu foi o suficiente para ele perceber as dificuldades do cargo.

“Se me derem a prefeitura de graça, eu não quero. Claro que é gratificante ser prefeito de uma cidade como Bauru. Ainda mais para quem nasceu aqui. É bacana isso, mas é tudo uma grande ilusão”, afirma.

Além de prefeito-relâmpago, Dudu ocupou outros cargos na administração pública como secretário da Educação, de Esportes e presidente do Departamento de Água e Esgoto (DAE). Por dez anos, foi presidente da Sociedade Hípica de Bauru e vice-presidente do Esporte Clube Noroeste por três mandatos.

Professor de matemática, Dudu conta com uma experiência de mais de 40 anos como diretor do Liceu e das Faculdades Integradas de Bauru (FIB), que fundou há cerca de oito anos.

Atual presidente do PFL, Dudu fala de suas experiências políticas, educacionais e sobre sua vida fora da escola nesta entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade – O senhor nasceu onde?

Dudu Ranieri – Em Bauru. Meu pai e minha mãe também. Meu pai nasceu na quadra 7 da rua Batista de Carvalho e minha mãe na quadra 9 da Araújo Leite. Eu nasci na quadra 8 da avenida Rodrigues Alves, em um sobrado do lado do Liceu. Naquele tempo não ia para hospital, as mulheres davam à luz em casa, com ajuda de parteiras.

JC – Gosta da cidade?

Dudu – Eu nunca pensei em morar em outro lugar. Eu me identifico totalmente com Bauru. É aqui que eu tenho meus amigos, minha família. Apesar de todos os problemas, é uma cidade muito boa para se viver, trabalhar, educar os filhos.

JC – Falando em educar, foi seu pai quem fundou a escola do Liceu?

Dudu – Meu pai fundou o Liceu em 1935. Era um ideal dele. O prédio (onde ainda hoje encontra-se a escola) era de um tio-avô nosso. Foi ele que permitiu ao meu pai instalar ali a escola. Hoje temos o ensino fundamental, médio, superior e técnico. Na faculdade temos só os cursos superiores. Nós temos também uma escola infantil que chama Domus Educandi, no Jardim América, que minha mulher toma conta.

JC – Como foi no começo?

Dudu – Naquela época, escola boa era escola oficial. Todo mundo brigava para estudar nos ginásios do Estado. As escolas particulares recebiam o que sobrava. Ao longo do tempo, as escolas oficiais começaram a crescer desordenadamente. Aí a qualidade caiu e a escola particular teve de optar pela qualidade e assim permanece até hoje.

JC – Dá muito trabalho administrar uma escola?

Dudu – Nossa! Dá uma dor de cabeça terrível. Você tem de cuidar de tanta coisa. Não é só de alunos, professores e funcionários. É muito mais que isso.

JC – O senhor continua trabalhando no Liceu?

Dudu – Sim. Estou no Liceu até hoje. Fico um pouco lá e um pouco na FIB. Mas quem está cuidando mais do Liceu são meus irmãos (Sérvio Túlio e Maria Lúcia) e meu filho José Ranieri Neto.

JC – Como foi o início da carreira como educador?

Dudu – Quando eu tinha 12 anos, tive a infelicidade de perder minha mãe. Quando fiz 17 anos, comecei a fazer Faculdade de Filosofia. Aí meu pai me chamou e disse que eu iria dar aula no ginásio (5ª à 8ª séries) do Liceu. Quando eu tinha 19 anos meu pai faleceu. Aí, meu nego, eu não escolhi. Eu fui obrigado a administrar. Imagina, você assumir hoje uma escola com cerca de 1.000 alunos tendo apenas 19 anos. Os dois anos que eu dei aula, ainda com o meu pai vivo, me ajudaram muito. Eu aprendi muito no contato com os alunos e professores. Eu trabalhava cedo, à tarde e à noite. Dava aula e administrava. Eu recebi uma missão do meu pai, que era dar continuidade ao que ele fez. Chegou um certo momento, eu entendi que devia fundar uma faculdade.

JC – Isso foi quando?

Dudu – Isso foi há cerca de oito anos e meio. Eu fiz a faculdade mais para a minha família. Na verdade, a escola é para os meus filhos trabalharem. Pelo que parece, eles têm a mesma idéia que eu tive, de receber aquilo como uma missão a ser cumprida. Todos trabalham na faculdade, meus três filhos e minha mulher.

JC – E como está a faculdade?

Dudu – A escola vai muito bem. Temos cerca de 2.000 mil alunos. De área construída, temos 13 mil metros quadrados. Estamos construindo mais um bloco escolar. Aquilo é uma pequena cidade, onde temos de fazer as ruas, as redes de água, esgoto, as galerias pluviais, iluminação. Temos de cuidar de tudo isso.

JC – Você gostava de dar aulas?

Dudu – O magistério é uma profissão muito agradável. É algo que nos realiza. Quem quer apenas ganhar dinheiro por um período e resolver os problemas dele, esse nunca vai se realizar na profissão. Tem de ter vocação.

JC – Quando não está trabalhando, o que costuma fazer para relaxar?

Dudu – O problema é que a idade vai passando, mas eu adorava jogar futebol. Quando eu fazia isso esquecia do mundo. Eu jogava no meio de campo, como uma espécie de volante e não passava nada, ali era para valer. Agora estou com artrose nos dois joelhos, por isso, hoje minha grande distração é tomar uma sauna. Faço isso duas ou três vezes por semana na Hípica. Estou fazendo também um pouco de musculação na academia da FIB.

JC – Embora não possa mais jogar futebol, o senhor tem costume de ir ao estádio?

Dudu – Antigamente, na época que eu fui vice-presidente do Noroeste, eu acompanhava o time em todo lugar que ele ia. Santos, Sorocaba, Araraquara, Marília, em todos esses lugares, chegava domingo eu pegava o carro e ia assistir ao jogo. Hoje, não vou com tanta freqüência ao estádio aqui em Bauru, mas na medida do possível eu vou.

JC – Ir à feira é um de seus passatempos preferidos. Por que?

Dudu – Eu gosto de comprar algumas coisas. As verduras têm uma qualidade muito boa, são frescas e mais resistentes para guardar na geladeira. Eu gosto de comprar alho. Ele é mais barato e a qualidade é melhor, além de serem maiores do que os do mercado. Tem um queijo que é feito por uma mulher de Jacuba (distrito de Arealva) que é um espetáculo. Compro limão. Essas coisas.

JC – O senhor tem alguma pretensão política?

Dudu – A gente nunca sabe. Eu não queria ser mais candidato. Aí o pessoal que dirige o meu partido, como o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e o governador Cláudio Lembo, eles me convidaram para ir a São Paulo e pediram para que eu ou minha filha (Chiara) saísse candidato a deputado federal na última eleição. Prometeram me dar apoio, eu aceitei e depois não me atenderam em nada. Eu gastei tudo do meu bolso. Eles não me ajudaram em nada. O único que colaborou um pouco foi o Afif Domingos, que mandou alguns folhetos, porque ele tinha interesse. Eu era o cabo eleitoral gratuito dele em Bauru. O partido mesmo, além de não ajudar, atrapalhou. Mandaram para a região alguns candidatos que me tiraram votos. Eu achei isso uma sacanagem. Pensei até em desistir no meio da campanha, mas nunca fui de desistir. Continuei, gastei dinheiro do meu bolso e não me arrependo.

JC – Ficou uma mágoa com o partido?

Dudu – Eu não diria mágoa com o partido. Não é o PFL, mas determinadas pessoas que se fazem de amigos e que não são. Agora eu pergunto. Dá para confiar em um apoio para uma futura campanha municipal quando nessa para deputado federal não tive nenhum? Fica difícil, né?

JC – E sua filha Chiara, poderá ser sua sucessora?

Dudu – Eu proibí ela de falar em política. Ela gosta, leva jeito, é muito amável, ela cativa as pessoas com a forma de falar. Ela é diferente de mim. Eu sou mais na porrada. É claro que ela não tem a bagagem que eu tenho, mas no aspecto de ser agradável, ela bate em mim de 50 a 0.

JC – Que avaliação o senhor faz dos 23 dias que foi prefeito da cidade?

Dudu – Ah! Como foi triste. Eu sofri. Não dormia à noite de tanto nervoso. A situação financeira já não era boa, mas naqueles dias estava muito pior. Na tentativa de receber apoio da população, o prefeito afastado começou a fazer algumas obras que não tinha feito ao longo dos seis anos. Isso, evidentemente, sem recursos. Quando eu assumi, não tinha dinheiro em caixa e estava com inúmeras contas a pagar. Empresas ameaçavam parar obras se não recebessem, não tinha dinheiro para pagar o salário dos funcionários municipais, não tinha dinheiro para a Funprev (Fundação de Previdência) e a empresa que prestava serviço de atendimento médico aos servidores municipais estava ameaçando suspender a assistência se não fossem paga as parcelas em atraso. Então, era uma coisa difícil de resolver.

JC – Ficou alguma lição dessa época?

Dudu – Nas minhas atuações (como prefeito, secretário e presidente do DAE) eu pude perceber que a arrecadação de Bauru é pequena em comparação às necessidades do município. Fica difícil para quem está no poder atender as reivindicações da população, porque falta dinheiro. Só com os recursos do município é impossível atender as necessidades. É preciso buscar recursos nas outras esferas, como governo federal e estadual.

JC – Mudando um pouco de assunto, recentemente o senhor passou a criar avestruz. Por que decidiu investir nisso?

Dudu - Estava todo mundo falando que essa seria uma atividade de futuro e eu decidi experimentar. Comprei dois casais de avestruzes, depois apareceu uma outra pessoa querendo vender as que ele tinha e eu fiquei com elas. Hoje tenho dez aves.

JC – Além de avestruz o senhor cria algum outro tipo de animal?

Dudu – Crio também carneiros e ovelhas. Devo ter umas 50 cabeças. Mas está duro de vender. Anunciei no jornal para as festas de fim de ano, mas vendeu muito pouco. Tenho uns 15 carneiros para vender, mas está difícil.

____________________

Perfil

Nome: José Augusto Vieira Ranieri

Idade: 65 anos

Nascimento: Bauru

Mulher: Marli Pertinhes Ranieri

Filhos: José, Chiara, Giovanna e Bruna

Hobby: Tomar sauna

Time: Palmeiras

Música preferida: Emoções – Roberto Carlos

Filme: Doutor Jivago

Para quem daria nota 10: Jesus Cristo

Para quem daria nota 0: Maus políticos