11 de julho de 2026
Saúde

Atividade lúdica melhora condição de criança doente

Por Constança Tatsch | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Os benefícios de atividades lúdicas realizadas por voluntários para alegrar crianças hospitalizadas são unanimidade entre médicos, pacientes e familiares. Mas, pela primeira vez, um estudo conseguiu expressá-los em números.

A pesquisa, feita por psicólogos da Santa Casa de São Paulo durante um ano, avaliou o efeito do trabalho de contadores de histórias no tratamento de 15 crianças com câncer, no setor de pediatria do hospital.

Os resultados apontam que 66% das crianças tiveram melhora no humor e no estado emocional. A interação com médicos, acompanhantes e outras crianças também melhorou em 46% dos casos. Os pacientes que estavam apáticos, passaram a caminhar pelo corredor e a brincar (60%). Outro ponto importante foi a melhora do apetite, registrada em 60% das crianças.

De acordo com o estudo, oito crianças reclamavam de dor. Depois dos contadores, seis relataram melhora. Outras cinco não queriam ficar na cama, no quarto ou no hospital - quatro pararam de se queixar.

A pesquisa foi feita de duas maneiras: acompanhamento psicológico e um questionário científico respondido pelos acompanhantes, antes e depois da visita do contador.

”É sabido que as atividades lúdicas são muito importantes, mas até o momento, não havíamos quantificado”, afirma Maria das Graças Saturnino de Lima, coordenadora da pesquisa. “E os resultados comprovaram nossas expectativas. Mostram o quanto as práticas lúdicas beneficiam a condição psicológica da criança doente.”

A psicóloga explica que são muitos os fatores que influenciam no bem-estar de um paciente com doença grave e, por melhor que seja o trabalho, não há milagres. “O câncer provoca muita dor. Não dá para responsabilizar só a parte psicológica. Ainda assim, as melhoras são significativas”, diz Maria das Graças, que pretende avaliar os benefícios de palhaços com adultos hospitalizados - os contadores foram escolhidos porque faziam visitas rigorosas.

Maria Letícia Cavalcanti Rotta, coordenadora do departamento de psicologia da AACC (Associação de Apoio à Criança com Câncer), também vê no dia-a-dia os benefícios de levar um pouco de alegria aos jovens pacientes. “Ela esquece um pouco da doença e se aproxima de uma vida mais saudável, resultando em uma vivência emocional menos sofrida, que contribui com o tratamento.”

“A gente consegue ver uma melhora no bem-estar físico. A criança lembra que o mundo vai além dos médicos e do hospital. Ela fica mais tranqüila e o relacionamento com os outros fica melhor.”

O voluntário

Por trás de tantos benefícios estão pessoas como Antonio Alfredo da Silva, 41 anos, engenheiro de telecomunicações e contador de histórias, ligado à Associação Viva e Deixe Viver que atua em 22 hospitais.

Há cinco anos, uma vez por semana, ele vai até a Santa Casa. Lê histórias, leva desenhos para colorir, conversa e pega no colo as crianças internadas. Se interessou pelo trabalho quando foi encontrar crianças de um orfanato que ajudava em um hospital. “Chegando lá, vi os caras contando histórias. Foi um choque ver aquele ambiente ruim e, ao mesmo tempo, a alegria que eles causavam.”

O resultados do estudo ele percebe na prática. “Em muitos momentos você chega e as enfermeiras pedem ajuda: “tem um aqui que não quer tomar remédio, lê um pouco, vê se ele consegue aceitar o remédio’. A gente percebe muito isso”, diz. “Cansei de ler e a criança dormir. Para mim, é o máximo. A psicóloga disse que elas sonham com isso”, conta.

Com sonho ou não, Toni já melhorou as noites de muitas crianças, como Caic Souza de Morais, 10. O menino, que fez tratamento de quase dois anos para tratar um tumor, não gosta de falar sobre a doença, mas lembra com carinho do trabalho de Toni. “Ele contava cada história legal.... Parecia que a gente estava em casa, até dormia com as histórias, várias vezes dava para dormir”, diz ele, para logo em seguida, mudar de assunto e começar a tirar dúvidas sobre o sistema banda larga. A conversa descontraída mostra que, ao lado dele, mais que um contador de história ou um engenheiro de telecomunicações, está um amigo.