08 de julho de 2026
Geral

Lar-Escola adapta violão para cegos

Clarissa Castiglione
| Tempo de leitura: 4 min

Há cerca de três meses, aproximadamente 30 alunos matriculados no Lar-Escola Santa Luzia, que atende portadores de deficiência visual, ganharam a oportunidade de aprender a tocar instrumentos musicais. O projeto trabalha a inclusão social de 14 deficientes visuais que estão descobrindo a arte de tocar violão e órgão. Das aulas surgiu a idéia de adaptar um violão para cegos.

O protótipo do violão, uma idéia de Nélson de Oliveira, um dos alunos no Lar-Escola Santa Luzia, está em fase de estudo, conta o professor de música Hebert Delgado. “É um violão só de braços, sem o corpo, feito para treinar digitação com a mão esquerda”. Com este violão, o portador de deficiência pode apoiar o polegar com a mão esquerda abaixo do braço do violão, deixando os outros quatro dedos acima da escala, na frente.

O objetivo é que, com o violão adaptado, os alunos possam estudar sozinhos durante a semana, explica Delgado. “A gente quer colocar pontinhos atrás do braço para que a pessoa possa passar o polegar naquele pontinho que irá indicar se é a cava um com um pontinho; cava dois com dois pontinhos, e assim por diante. O cego, mesmo não vendo a escala, com o polegar atrás do braço do instrumento, saberá em qual casa ele está e, conseqüentemente, fará a digitação certa”.

Outra ação que está nos planos de Delgado é desenvolver uma técnica de partitura em braile. O professor, que é bacharel em instrumentos de cordas, violão e guitarra, diz que a técnica para dar aulas especiais para cegos é resultado de 12 anos de ensino de música associada ao trabalho que ele desenvolve com cegos.

Delgado já conhecia advogado Manoel Ramos da Silva, aluno do Lar-Escola há três anos. Foi Silva que apresentou Delgado na instituição para dar aula de música aos portadores de deficiência visual. “Sou de Avaí e freqüentava o Lar-Escola e o Centro de Aprendizagem Musical em Bauru. Sabendo da existência de um órgão na escola, conversei com meu professor e ele aceitou a proposta de lecionar aulas de música lá”, explica o advogado.

Segundo ele, os alunos estão animados com a novidade. “Eu acredito que a aula de música ajude no incentivo, no estímulo e na inclusão social. Muitos já sabem o braile, mas continuam lá aprendendo outras atividades como o empalhamento de cadeiras que, para muitos, é um meio de vida”, diz.

A instituição oferece aos usuários, além das aulas de braile, oficina pedagógica, informática através de programa próprio para deficiente visual, empalhamento em cadeiras, grupo de teatro e curso de massoterapia. Manoel afirma que muitos pegam serviço de empalhamento e levam para fazer nas aulas. “As pessoas acostumam tanto com o esquema que acabam continuando na escola, pois não têm para onde ir. O que tem para o cego fazer depois que aprendeu tudo lá? Voltar para casa? Não, ele continua freqüentando a escola para aprender e dar continuidade às atividades”, relata.

As aulas de música têm duração de uma hora, das 13h30, às 14h30, todas às terças-feiras órgão, com violão e teoria musical. Os alunos são divididos em turmas de três grupos. “Um grupo fica comigo fazendo teoria musical, o outro fica com o Nélson na aula de técnica de violão, aprendendo os primeiros acordes. E o terceiro grupo fica com o Vítor (Vítor Napoleão) no teclado do órgão”. Para que todos os alunos passem pelos três ensinamentos, é feito um rodízio com as turmas até completar os três ciclos.

Os instrumentos não são diferentes e não possuem nenhuma adaptação, mas sim é usada técnica pedagógica especial. “Não estamos usando instrumentos especiais, mas sim uma técnica pedagógica específica. A gente procura mostrar para o aluno o mínimo de dedos que ele precisa mexer para mudar de acorde. Damos dicas de referência de como perceber os tipos de teclas - as pretas e as brancas”, explica Delgado. O Lar-Escola Santa Luzia para Cegos fica na avenida Castelo Branco, 24-9, telefone 3226-1977.

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A entidade

O Lar-Escola Santa Luzia atende pessoas de todas as idades – atualmente, o aluno mais novo tem 14 anos e o mais velho, 80 anos, segundo Leila Liz Romani Junqueira, assistente social da entidade. Com cerca de 40 anos de existência, a entidade tem 30 alunos matriculados e uma equipe técnica de quatro profissionais.

De acordo com a assistente social, os alunos recebem transporte gratuito da Secretaria da Educação. Segundo ela, além de ser um trabalho voluntário, as aulas de música ajudam no desenvolvendo individual.

Outro projeto do Lar-Escola é a sala de informática que foi montada em 2006. Em apelo à comunidade, Junqueira ressalta a necessidade do trabalho voluntário. “Conseguimos montar a escola de informática através da doação de quatro computadores. Mas a nossa maior dificuldade ainda é manter um profissional que lecione as aulas. Precisamos de voluntários que entendam o básico de informática, pois o programa para deficientes visuais é muito simples”.