08 de julho de 2026
Cultura

Desafios e esperanças para 2007

Diego Molina
| Tempo de leitura: 6 min

Se o ano que terminou será lembrado na história de Bauru como aquele em que finalmente recuperou-se a vontade de ir ao cinema, também foi o período em que o número de atrações de expressão a preço acessível do Serviço Social do Comércio (Sesc) foi reduzido ao máximo e ainda em que se reiterou a incapacidade da retomada dos desfiles das escolas de samba. Manter uma programação de estréias com qualidade nos cinemas, de shows e peças respeitáveis nos palcos e preservar a cultura do Carnaval bauruense são os maiores desafios no setor para 2007.

Ao longo de 2006, o Bauru Shopping ganhou um complexo com cinco novas salas de cinema e o espaço de lazer e alimentação Alameda Quality Center presenteou a cidade com mais quatro, com o Cine’N Fun. Dizer que são salas de exibição da mais alta tecnologia é mera propaganda: na realidade, são apenas cinemas confortáveis, com som e imagem de qualidade, compatíveis com as proporções de Bauru e comparáveis às salas de cidades do mesmo porte. Vale o destaque para as salas com tecnologia de som THX (uma no Multiplex Bauru Shopping e as quatro do Cine’N Fun).

Quanto à programação, os exibidores têm se mostrado a favor do público, com oferta de variedade e, especialmente no Alameda, produções do circuito alternativo e da cena brasileira. Mesmo que não obtenham público como os blockbusters, são louváveis as estréias de filmes como “Caché”, “Volver”, “Cinema, Aspirinas e Urubus”, “Pequena Miss Sunshine” e “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”. A torcida é pela continuidade da variedade em 2007.

Continuidade não é o termo para definir a programação cultural do Sesc. Enquanto o primeiro semestre teve shows de Zeca Baleiro, Paulinho da Viola, Autoramas e Dead Fish, peças com Celso Frateschi e Luís Melo e espetáculos da Quasar Cia. de Dança e Cisne Negro, os últimos meses do ano foram preenchidos apenas com apresentações de artistas de Bauru e região - não menos talentosos, porém que sempre tiveram espaço garantido na unidade.

A falta de estrelas de projeção nacional no Sesc é provocada pela adequação orçamentária na expectativa da implantação do projeto de lei do Super Simples. O projeto, que unifica numa só guia os impostos e contribuições da União, Estados e municípios, foi aprovado no Senado e aguarda apenas a sanção do presidente Lula para entrar em vigor em julho. Caso seja implantado, o Super Simples permitirá que micro e pequenas empresas de prestação de serviço deixem de recolher contribuição destinada às entidades de serviço social, como é o caso do Sistema S que abrange o Sesc.

Trabalhando com previsão de dois terços do orçamento normal, o Sesc não divulgou sua programação para os próximos meses. A expectativa do público é quanto à permanência de serviços gratuitos ou a cobrança de pequenas taxas para sua manutenção. Até mesmo uma alta razoável no preço dos ingressos seria aceitável pela retomada do calendário com atrações que não vêm à cidade a não ser pela unidade.

Para os palcos do Teatro Universitário Veritas e do Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves, a esperança é que mantenha-se a programação intensa de peças, espetáculos e apresentações com variedade e qualidade. Ainda assim, a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) deve urgentemente reformar as instalações do Centro Cultural - que abriga o Municipal - pois pode não perder público, mas também não o amplia com os banheiros e a própria galeria na atual situação de desleixo.

Poder público

Grande entrave na vida geral do Município, a dívida de R$ 73 milhões com a Fundação da Previdência (Funprev) fez Bauru perder também a rede de Pontos de Cultura, aprovada pelo Ministério da Cultura (MinC) em 2005. Seriam R$ 1,5 milhão para dez projetos, incluindo melhoria de espaço físico, compra de equipamentos e promoção de atividades e ações culturais.

A necessidade de adequação ao orçamento apertado fez com que a SMC suspendesse ainda alguns projetos, como os shows de rock no Parque Vitória Régia e o apoio ao Cineclube Aldire Pereira Guedes – o projetor de filmes está quebrado há cinco meses. Outras iniciativas, como o Bibliônibus ou as Bibliotecas Ramais, permanecem paradas ou necessitam de aporte para não fecharem as portas definitivamente. Apenas 1,3% do orçamento municipal é destinado à cultura.

Para agentes culturais e artistas, outro ponto falho da atual SMC é a falta de diálogo. Diversos representantes do setor ouvidos na última semana pelo JC Cultura questionaram as falhas de comunicação com o secretário José Augusto Ribeiro Vinagre ou com os coordenadores de área. “Nunca encontramos ninguém para conversar, falar de projetos ou pedir data no teatro quando procuramos a secretaria. Parece haver um favorecimento de alguns produtores culturais, que sempre têm data, e para outros, não há nem tempo para ouvir os pedidos”, comentou um representante de classe que pediu para não ser identificado.

Da SMC, a população espera especialmente a instalação do Museu Histórico e do futuro Museu da Imagem e Som João Simonetti na antiga Estação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, cedido à prefeitura em convênio de posse precária; e a contínua realização de eventos não apenas nos espaços tradicionais, como o Vitória Régia, o Centro Cultural e o Automóvel Club de Bauru, mas o estabelecimento de um calendário de atividades e a criação de organismos adequados nos bairros.

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Carnaval?

Uma iniciativa de políticos, empresários e artistas divulgada pelo JC Cultura há algumas semanas pretende retomar o Carnaval na avenida Nações Unidas, não com os tradicionais desfiles, e sim com uma festa popular, com trio elétrico e bandas. Pelo andamento das coisas, esse deve ser mesmo o único Carnaval possível em Bauru.

O retorno dos desfiles vem sendo promessa do secretário de Cultura nos últimos dois anos. Nos últimos meses, José Augusto Ribeiro Vinagre e os representantes da Liga das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas de Bauru (Lesec) se disseram engajados e o projeto para arrecadação de recursos com empresários foi até aprovado para a Lei de Estímulo à Cultura do MinC. Uma reunião seria marcada com possíveis patrocinadores por uma empresa que estaria cuidando da captação de recursos, mas nenhum fato concreto foi divulgado.

Na realidade, o que torna o retorno dos desfiles quase impraticável, após seis anos de tamborins guardados, é que as próprias escolas se desarticularam e as comunidades não vivem mais o dia-a-dia no berço da festa. Desde que a Prefeitura Municipal fechou os cofres para o Carnaval, poucos foram os defensores da tradição que, em áureos tempos, lotava a Nações Unidas e mesmo o Sambódromo; esses recriam enredos e participam dos desfiles de cidades da região como convidados, mais pela história que carregam e pelo esforço do que por uma produção esmerada.

Mais do que recuperar o brilho das fantasias e dos carros alegóricos, a força dos enredos e dos sambas decorados pela população, é preciso reviver a vontade e a paixão pela preservação de uma parte da história de Bauru.

Na atual situação, em que a Passarela do Samba virou quadrinha de vôlei, há ainda os que vivem o Carnaval? O empresariado e o poder público municipal podem apoiá-los? Se é para colocar as escolas no Sambódromo tocando instrumentos velhos apenas para cumprir promessa, é melhor nem começar a discutir o Carnaval 2008.