A existência de organizações criminosas estruturadas dentro e fora dos presídios indica o grau de perigo que a sociedade enfrenta. A capacidade de articulação dos criminosos; seu poder de decidir sobre a vida e a morte de inocentes; os mecanismos de comunicação utilizados e a conexão entre o comando que se hospeda nos presídios e os “soldados” que agem nas ruas, são todos eles elementos que comprovam a existência de uma república carcerária, assustadoramente poderosa. Até condomínio residencial já descobriram num presídio do Paraná. Basta um simples “alô” lá de dentro das grades e ônibus são incendiados com os passageiros dentro, seqüestros são perpetrados no Rio, em São Paulo, Vitória ou onde mais for preciso.
O poder público alertado e sacudido pela rebelião de 29 presídios em fevereiro de 2001 parecia ter aprendido uma sangrenta lição. Não aprendeu ou se aprendeu foi incapaz de transformá-la em ações eficazes. As “drásticas providências” anunciadas todos os anos não conseguiram mudar o panorama dentro das penitenciárias e fora delas. Turistas estrangeiros são atacados no caminho que liga o Aeroporto ao Centro do Rio. Surgiram agora – para o público - as autoridades já sabiam há muito tempo - as “milícias”, grupos para-militares compostos por policiais e ex-policiais que querem tomar o lugar das gangues de traficantes nos morros cariocas, aparentemente para impor a ordem. Na verdade querem vender proteção aos moradores. O PCC, - Comando Vermelho ou seja lá que tome tenha -, continua como um poder dentro do poder, disputando espaço com facções rivais e desafiando as autoridades. Manifesta-se indignado o presidente Lula. Oferece ajuda das Forças Armadas, mas descobre-se que nem os soldados treinados para defender a Pátria têm condições logísticas de sair atrás de bandidos.
Os altos escalões da República também deixam de dar o exemplo ético ao povo. O Congresso Nacional, minado pelos mensaleiros e sanguessugas continua nos brindando com um escândalo por mês. Depois da tentativa de duplicar os salários eis que é anunciada a sinecura dos suplentes. Supersalários que somados a outras vantagens podem chegar a assombrosos R$ 85,9 mil. Tudo isso para não se fazer nada no período de recesso da Câmara e do Senado.
Ninguém pode afirmar que fatos acintosos, como este, ajudem a compor o mosaico impulsionador da violência neste País. Mas, com toda certeza, a bandidagem sente a perda de controle do Estado sobre a ordem.
A crescente desmoralização do Estado há que ser combatida de cima para baixo e debaixo para cima, ao mesmo tempo. Chega de se pensar em medidas de médio e longo prazo, ou criar novas leis, como quer o presidente Lula. De leis estamos cheios. A ação tem que ser já. Quem vive sob o domínio do medo, sente vergonha dos escândalos políticos e sofre com a violência, quer medidas de curtíssimo prazo. Que não venham dizer que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. É jargão futeboleiro. A sociologia explica que a raiz da criminalidade começa na falência das elites, na sociedade injusta assentada no privilégio de poucos. A cadeia pune o crime passado, desde que não se transforme em rede de spas e muito menos em depósito infecto, sujeito a toda espécie de promiscuidades. O delito em estado de gestação, o que ainda não foi cometido e pode ser abortado, encontra seu melhor combate nos serviços de inteligência. É aí que o governo tem que investir suas melhores fichas. Na ação imediata do trabalho de inteligência que preventivamente impede o crime de se articular. E bandido desunido será sempre vencido. Mesmo que use colarinho branco.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC