10 de julho de 2026
Política

Para padre Beozzo, apesar dos avanços, PT pecou na questão agrária e de empregos

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Encerrado o primeiro mandato do PT na esfera federal, a avaliação do padre e teólogo José Oscar Beozzo é que faltou avançar mais na questão da reforma agrária e na geração de empregos. Essa, segundo ele, é a principal crítica ao trabalho do ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva à frente da Presidência da República.

Embora tenha feito mais do que os governos anteriores nessa área, a reforma agrária segue em um ritmo muito lento. “É uma vergonha que (o governo) não tenha feito num ritmo maior aquilo que é possível fazer”, afirma o padre. Segundo ele, o Brasil é o único país do mundo que poderia fazer reforma agrária sem trauma social, porque existem terras disponíveis para isso. Mas, por outro lado, os proprietários de terra sempre tiveram poder.

Outra crítica à primeira gestão do PT refere-se à criação de novos postos de trabalho. O programa Primeiro Emprego, segundo Beozzo, não deslanchou, apesar de alguns avanços. Ele visa a inserção de jovens com idade entre 16 e 24 anos no mercado de trabalho. Como a maioria das empresas exige experiência para contratar, quem procura pelo primeiro emprego encontra sérias dificuldades.

Por outro lado, o governo Lula acertou na condução da política externa e social, na avaliação do padre. “Não quero discutir como ela (política social) foi feita, se podia ser melhor ou não, mas sim dizer que não é tolerável um país com uma produção agrícola grande como a nossa ter gente passando fome”.

Segundo Beozzo, essa sempre foi uma prioridade da igreja. “Não temos porque não reconhecer que houve um avanço nesse sentido, mesmo com alguns tropeços”, diz.

Sobre a política externa, o padre diz que ela está mais independente, mas ele não atribui isso exclusivamente ao governo Lula. Ele cita Ernesto Geisel, que reconheceu a República Popular da China, e Juscelino Kubitschek, que reatou relações comerciais com a União Soviética em plena Guerra Fria, defendendo assim os interesses do Brasil, que passou a vender café para aquele país.

A decisão dos governos brasileiros de não entrar em guerras é uma política importante, na opinião de Beozzo. Ele cita a 1.ª Guerra do Iraque, em que até a Argentina mandou soldados, mas o Brasil, embora convidado a participar, manteve-se neutro.

“Eu acho que a frase de Lula, recém-eleito, quando Bush pediu que o Brasil ingressasse na 2.ª Guerra do Golfo foi profunda. Ele disse que ‘nossa guerra é contra a fome e não contra outros países’. Isso vai muito de encontro à posição da igreja em relação a política internacional, que busca mais solidariedade e a resolução dos conflitos pelo diálogo”, afirma.

Beozzo lembra ainda do laboratório de produção de genéricos contra aids que o Brasil construiu e doou ao Moçambique. Ele cita também o perdão da dívida externa da Bolívia com o Brasil, logo após a queda do presidente Sanchez de Lozada, em 2003, e a subida de seu vice, Carlos Mesa. “Acho que são gestos assim que dignificam um país. A preocupação não é apenas com cifrão, mas com outras lógicas e valores”, justifica.