O programa de erradicação do café adotado pelo governo federal em 1957 foi o grande responsável pelo direcionamento que o padre José Oscar Beozzo, 65 anos, daria à sua vida religiosa. Em um primeiro momento pode parecer incoerente, mas as graves conseqüências sociais que o programa causou aos trabalhadores naquela época marcaram o pároco de forma definitiva.
Desde então, ele tem se empenhado na luta contra as desigualdades e em favor do povo mais humilde. Essa opção de vida transformou Beozzo em um dos principais expoentes da Teoria da Libertação no Brasil – que ressalta o trabalho social da igreja.
O programa de erradicação do café foi adotado pelo governo por causa da superprodução. Para incentivar os produtores rurais a investir em outras culturas, o governo começou a pagar por cada pé de café arrancado.
Beozzo recorda que, na época, o produtor que tinha 500 mil pés de café recebia dinheiro suficiente para comprar duas fazendas. “Só de arrancar café, o produtor ficava rico. Alguns não tiveram nem o bom senso de esperar a safra”, lembra ele.
Em algumas fazendas, havia cerca de 2 mil pessoas trabalhando na colheita do café. Como não havia mais plantação, a cidade ficou cheia de gente andando pelas ruas, desempregados e sem ter o que comer. “Muita gente vinha bater na porta de casa pedindo um prato de comida, com um monte de filhos do lado. Houve um colapso na cidade”, comenta.
Nesse momento, Beozzo decidiu que além de ser padre, ele iria estudar ciências sociais, achando, ingenuamente, que conseguiria mudar alguma coisa em favor das famílias mais necessitadas. “Foi uma decisão que eu tomei aos 16 anos, porque não achava aquilo correto e queria fazer alguma coisa para mudar”, conta.
Hoje, além da formação teológica e filosófica, Beozzo tem também uma formação sólida em ciências sociais. O conhecimento nessa área o levaria, mais tarde, a enxergar na Teologia da Libertação uma forma de ampliar o trabalho social da igreja.
Modismo
Essa opção trouxe sérios problemas para Beozzo dentro da própria igreja. O Vaticano nunca aceitou muito bem a idéia da teologia por acreditar que se tratava de um mero modismo político de teólogos de esquerda.
As conseqüências só não foram mais sérias porque padre Beozzo sempre contou com o apoio de bispos, como dom Pedro Paulo Koop, que trabalhou em Lins de 1964 a 1980. “Ele sempre me deu apoio, sempre confiou. Quando se tem essa retaguarda fica mais fácil trabalhar”, reconhece Beozzo.
Outra figura a quem o padre faz rasgados elogios é o arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns. “Essas duas pessoas sempre me deram apoio, não só em conflitos sociais e políticos, mas também em conflitos internos na igreja, porque o Vaticano pegou pesado”, conta.
Beozzo lembra que, um dia, dom Paulo o chamou para dizer que havia recebido uma carta de Roma. A correspondência não era nada amistosa. Por determinação do Vaticano, Beozzo estava proibido de lecionar na Faculdade de Teologia.
A proibição durou nove anos, mas o padre nunca deixou de dar aulas. Mesmo sem a licença de Roma, Beozzo continuou trabalhando. Ele permaneceu na faculdade durante 25 anos.
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Inimigo nº 1
O cardeal alemão Joseph Ratzinger, que substituiu João Paulo II no comando da Igreja Católica, sempre foi um dos maiores críticos da Teologia da Libertação. Antes de assumir a função de papa, Ratzinger era o encarregado da doutrina dentro da igreja.
Beozzo lembra que o Vaticano tentou de todas as formas condenar o frei peruano Gustavo Gutierrez, principal liderança da Teologia da Libertação, mas não conseguiu. Em seguida, a perseguição virou-se contra o teólogo ativista brasileiro Leonardo Boff, que segundo Beozzo, era a segunda figura mais importante dentro do movimento.
De acordo com o padre, depois de conversas com Gustavo Gutierrez, o atual papa reviu sua posição sobre a Teologia da Libertação e o momento não é mais de confronto. Ele revelou que, em março próximo, haverá uma reunião em Bogotá, na Colômbia, para debater o assunto.
“Tenho muita confiança que se encerre um contencioso que durou 25 anos e que nunca deveria ter existido”, diz Beozzo. “Eu acho (essa briga) um absurdo, porque uma casa dividida não pára em pé”, afirma.
Hoje, o padre é coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Cesep) e membro do Centro de Estudos de História da Igreja na América Latina (Cehila).