Pouca gente deve se lembrar, mas quando chovia, no final dos anos 60, a rua João Simonetti - principal via de acesso ao Parque União (zona oeste de Bauru) - transformava-se em um verdadeiro lamaçal. “Era tão escorregadio que a gente descia patinando”, recorda Eugênia Maria Fonseca Minhoto Bologna, 67 anos.
Ela sabe disso porque é uma das moradoras mais antigas do bairro (mudou-se para lá em 1969, logo após o conjunto habitacional ter sido inaugurado). Bologna viu casas sendo ampliadas, ruas sendo asfaltadas e crianças crescendo. Esse privilégio ela conquistou como mérito por viver durante quase 40 anos em um mesmo lugar. Apesar de ser mais novo que ela, Roberto Francisco Lopes Neco, 54 anos, também teve essa oportunidade.
Ele acompanha a história do Núcleo Nova Esperança (região noroeste da cidade), praticamente desde o momento do parto, no final de 1969, época em que os primeiros imóveis do conjunto habitacional foram entregues aos mutuários.
Filho de ferroviário, morador da Vila Dutra, Neco tinha 17 anos quando se mudou para a nova casa. Uma coisa marcante, da qual ele se lembra até hoje, é a cerca de arame farpado que envolvia o “núcleo recém-nascido”. “Havia uma única entrada para o bairro, que era controlada por uma cancela, igual aquelas que existem nos cruzamentos das ferrovias”, lembra.
Chega a ser estranho imaginar conjunto habitacional popular protegido por cercas, com porteiro e tudo, igual a um condomínio. O fato é que, no começo, a Nova Esperança era assim e a explicação para isso é simples.
“Toda vez que alguém se mudava para cá, tinha de ir falar com o senhor que cuidava da entrada para pegar as chaves da casa”, explica Neco. O guarda do núcleo também tomava conta das torneiras e dos globos usados para cobrir as lâmpadas existentes nos imóveis.
De acordo com Neco, a medida foi tomada para evitar que os objetos fossem furtados antes das casas serem ocupadas pelos devidos moradores. “Naquele tempo já havia ladrão”, observa ele. Desde aquela época, tanto o Núcleo Nova Esperança quanto o Parque União passaram por transformações imensas.
Mas as mudanças não ficaram restritas apenas aos dois bairros em questão. Lugares que no passado eram verdadeiras fazendas, hoje estão cobertos de cimento e asfalto. Há cerca de 30 anos, a Jardim Vânia Maria (zona norte de Bauru) mais parecia uma reserva ecológica, garantem alguns moradores.
“Aqui era um matagal sem fim”, rememora a dona de casa Maria Pereira, 72 anos. Aproximadamente 29 anos atrás, ela e o marido João Paulino de Faria, 76 anos, praticamente desbravaram a região.
“Tinha uma casinha aqui, outra ali. Havia também uma igrejinha de madeira, que depois foi desmanchada”, conta ele. Naquele tempo a vida do casal no bairro devia ser bastante solitária. A da família de Neco provavelmente também era.
A residência dele está entre as primeiras a serem ocupadas no bairro. “Poucas casas tinham moradores. Em geral, cada rua tinha cinco ou seis famílias”, recorda ele. Hoje os tempos são outros: o bairro cresceu, ganhou mais casas e praticamente não guarda resquícios da época em que foi inaugurado.
Um evolução, com toda certeza. Mas se algumas regiões da cidade registram avanços nas últimas décadas, outros bairros apresentam uma situação de franca decadência, pelo menos em alguns aspectos.
Há cerca de 20 anos, Magali Rodrigues Lázaro acordava de madrugada com o apito dos trens que circulavam próximos à sua casa, no Parque Bela Vista. “Dava gosto de ver toda aquela agitação”, diz. Hoje o barulho das locomotivas quase não chega até a casa dela. “Abandonaram a ferrovia. Ficou tudo uma escuridão só”, lamenta.
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Velhos carnavais
Aparecida Maria Tiritan Domingos, 64 anos, pode até não ser a mais antiga moradora da zona oeste de Bauru, mas com certeza é uma das que mais têm histórias para contar. É que o pai dela, já falecido, era dono de um clube famoso, situado na Vila São Francisco, o Tiritan. O empreendimento - que tinha salão de bailes, piscina e um chuveirão com calha de madeira - era administrado pela própria família de Domingos.
“De segunda-feira era dia faxina”, lembra ela, “então todo mundo ia até lá e ajudava a esfregar a piscina (que era feita de madeira) e a encerar o chão do salão, até deixar brilhando.”
Domingos recorda com especial saudades dos bailes de carnaval que eram feitos no local. “Tinha o baile das crianças, durante o dia, e o dos adultos, à noite”, diz. Todos os anos, ela e as primas tinham a missão de abrir a folia infantil.
“É que a meninada tinha vergonha de dançar, então acabava sobrando pra gente”, explica. Domingos não teve oportunidade de participar dos bailes feitos à noite no Tiritan, pois quando ela se tornou adulta, o local já havia deixado de funcionar.
Mas mesmo depois de tanto tempo, o clube ainda tem seu nome registrado na memória dos moradores da região. “É comum as pessoas chamarem aquela parte do bairro de Tiritan”, afirma.