08 de julho de 2026
Nacional

Novo exame pode evitar morte de grávidas

Por Coinstança Tatsch | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Um novo tipo de exame que está sendo estudado pode ajudar no diagnóstico precoce da pré-eclâmpsia, a maior responsável por mortes maternas. A dopplerfluxometria das artérias oftálmicas é um exame que avalia o fluxo sangüíneo no globo ocular e pode apontar se a mulher sofre de pré-eclâmpsia e qual a gravidade do quadro. No Hospital das Clínicas de Belo Horizonte é realizado desde 2000. Pesquisas na mesma direção estão sendo realizadas na Unifesp, em São Paulo.

No HC mineiro, o oftalmologista Alexandre Simões Barbosa estava pesquisando a recuperação de pacientes após cirurgia na retina. Encontrou entre as mulheres com pré-eclâmpsia alterações importantes, que indicavam um aumento de fluxo sangüíneo nos olhos. Mudou o objeto da tese e desde então se dedica a defender a descoberta, por duas vezes premiada em congressos internacionais. O exame parece um ultra-som do olho.

“O impacto dessa pesquisa é que a gente tem um parâmetro para dar o diagnóstico da pré-eclâmpisa. Pode diferenciar quem tem a doença de quem tem só a hipertensão, ou se é sobreposta. Isso melhora a qualidade do tratamento. Dá para avaliar a evolução da doença’’, diz. “É um exame complementar, mas que define condutas.’’

A pré-eclâmpsia é uma doença grave que afeta entre 5% e 10% das gestantes. A evolução pode levar à morte da mãe e do feto, risco que eleva o Brasil ao segundo lugar em mortes maternas na América Latina. Ao contrário do que muitos pensam a doença não é uma simples hipertensão.

O aumento da pressão é um dos principais problemas, mas não o único: “Hipertensão, edema generalizado e proteinúria (perda de proteína na urina). Essa é a tríade clássica. Mas é só a ponta do iceberg porque a mulher pode estar com todos os órgãos comprometidos”, explica Nelson Sass, professor do departamento de Obstetrícia da Unifesp e chefe do setor de hipertensão arterial e nefropatias na gravidez. “No ápice, afeta o cérebro, quando a paciente sofre a eclâmpsia ou convulsão. É uma doença extremamente dramática.”

O médico afirma que o novo exame está em estudo, mas ainda é cedo para usá-lo na prática clínica. Mesmo a mulher mais saudável pode desenvolver pré-eclâmpsia, que costuma ocorrer após a 20ª semana de gravidez. Isso porque a hipótese mais aceita para designar a causa da doença é que ela seja uma resposta imunológica do corpo da mulher aos antígenos do pai, presentes especialmente na placenta.

Simplificando bastante, é como uma rejeição a um órgão transplantado. “O problema é que é uma gestação que começa sem ser de risco e vira de risco do nada. É uma doença muito rápida, em uma ou duas semanas ela piora muito”, afirma Eduardo Cordioli, coordenador da maternidade do Hospital São Camilo.

Os principais fatores de risco são: ter mais de 40 anos ou ser jovem demais, primepaternidade (primeira gravidez desse parceiro), quem já teve pré-eclâmpsia, histórico familiar e até tabagismo. Alguns homens têm componentes protéicos mais difíceis de serem tolerados. Por outro lado, algumas mulheres têm uma sensibilidade imunológica exagerada.

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Perguntas e respostas

1 - Como é feito o exame?

O exame é simples e não é invasivo. Funciona como um ultra-som. A paciente deita, fecha os olhos e o aparelho é colocado sobre o olho. Numa tela aparecem o globo e os vasos sanguíneos, que serão analisados.

2 - Em que momento da gestação ocorre a doença?

Geralmente, a pré-eclâmpsia aparece após a 20ª semana. Nos grupos mais precoces, os sintomas surgem antes da 34ª semana. Esses são considerados os casos mais graves. Acima desse período, o mais indicado é interromper a gestação, uma vez que o bebê já está maior, para evitar que o quadro se agrave.

3 - O bebê também corre riscos?

Sim, porque a saúde da mãe como um todo pode estar comprometida. Pode haver sofrimento fetal com a falta de oxigênio, uma vez que não há troca adequada entre a placenta e a mãe, podendo ocorrer necrose. Ainda assim, quem sofre primeiro é a mulher e, em casos críticos, pode ser preciso antecipar o parto.

4 - Como deve ser o parto de uma mulher com pré-eclâmpsia?

Segundo os médicos, se possível, é preferível optar pelo parto normal. Como o quadro da mulher é complicado, e a cesárea é mais delicada, o parto normal é considerado mais seguro.