09 de julho de 2026
Geral

Dona Cecília: ‘Tia, vai custar sangue’

Por Alceu Luís Castilho | Correspondente do Jornal da Cidade em Brasíllia
| Tempo de leitura: 2 min

Nilson Mendes fica pelo caminho e Tião leva a reportagem até a casa da mãe, onde mora. Aos 80 anos, Cecília Teixeira do Nascimento revela-se um fio da meada e tanto. A história dos cearenses que partiram para o Eldorado da borracha e legaram ao mundo a saga de Chico Mendes ganha contornos específicos em suas rugas orgulhosas.

Ela nasceu em Xapuri, filha de um cearense e de uma boliviana, e está desde 1969 no Seringal Cachoeira. “Mudou muito. Primeiro que acabou o patrão. Quando chegamos era um, o finado Guilherme Zaire, depois o Lambato Ribeiro. Em 1988, foi a conclusão do empate, e em dezembro mataram o Chico. Por isso que está tudo em pé”.

Não, dona Cecília não está falando de um jogo de futebol. Empates eram os atos organizados por Chico em que os seringueiros, com mulheres e crianças à frente, impediam que capangas dos fazendeiros derrubassem mais mata. Foi por causa desses empates que Chico foi morto.

“Ele nasceu no Seringal do Porto Rico, depois foi para o do Equador. Gostava tanto do Cachoeira que por ele perdeu a vida. Ele não era de briga, não era violento, mas de boas maneiras”, conta dona Cecília. “Sim, teve momento que a gente teve muito medo, principalmente quando o fazendeiro entrou. Nem o oficial de Justiça deixavam passar. Teve mulher que desmaiou”.

A matriarca dos primos de Chico olha fixo, na mesa do mesmo casebre onde cozinhava durante os empates para 150, 200 trabalhadores e familiares. “O Cachoeira vai ser nosso”, dizia Chico Mendes, segundo a voz de dona Cecília. “Ele falava com o palito no dente, parece que estou vendo agora: ‘Tia, vai custar sangue’”.

Todos lembram o quanto ele era inteligente, desde menino. “Me lembro tanto do Chico, fazendo cartas para mandar para o presidente”, relembra a tia amorosa. “Ele só não queria que ‘derribasse’”, chora dona Cecília, amparada pelos filhos - os herdeiros do seringal.

Ela não gosta que falem do que aconteceu com o sobrinho. “Ele todo dia trazia rancho”, conta. “Do sal ao isqueiro”. A tia que sabe atirar - “matava bem um gavião”, orgulha-se a filha Orlene - e pilotava o fogão para uma verdadeira tropa derrete-se ao descrever o menino, o adolescente e o homem Chico Mendes.

“Ele lia parecia que estava cantando. Escrevia bem, mas bem mesmo... Era mais inteligente que os irmãos”. Heroína amazônica anônima, Cecília se considera hoje “na reserva”, mas nem sempre foi assim. “Chico, acaba com isso, será que não vai dar em nada, não?”. A resposta era sempre a mesma: ‘Vai nada, ‘véia’”.