09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sobre boleiros que beijam camisas e paisagens correlatas


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Tornou-se algo comum ver jogadores de futebol que já passaram por diversos clubes, inclusive na Europa, e já com mais de trinta e cinco anos voltar ao Brasil para ganhar mais alguns "trocados" e depois encerrar a carreira. Até aí tudo bem. No futebol moderno os clubes ou times não são mais donos da vida dos jogadores e o atleta profissional não só pode como deve cuidar de sua carreira, naturalmente curta, e que pode ser mais curta ainda em decorrência de contusão grave. Mas, o que às vezes é motivo até de piada é a falsa impressão de amor ao novo clube que o veterano atleta tenta passar ao público. Boleiro bagre ensaboado ou boleiro vaselina, como diria um cronista esportivo aqui da terrinha.

Há cerca de dois anos um conhecido jogador que já foi até da seleção brasileira apresentou-se no São Paulo F.C. Posou para fotos vestindo a camisa do tricolor mais querido e em seguida anunciou seu contrato com um clube japonês. Um outro que jogou no auge da carreira no São Paulo e depois foi para a Europa, quando voltou beijou as camisas do Palmeiras, do Cruzeiro e até onde sei mais umas duas. Um outro, mais recentemente, quis deixar transparecer tanta intimidade com o novo time que até confundiu seu nome com o do maior rival. Alguns dizem que jogar nesse novo time é velho sonho de infância, que o pai era torcedor fanático desse time, às vezes mesmo tendo vivido sempre em outro estado, ou outra ofensa à inteligência do mais embriagado torcedor. Ademir da Guia beijava a camisa do Palmeiras? Rivelino beijava a do Corinthians e Mané Garrincha beijava a do Botafogo? Não o faziam, porque era desnecessário demonstrar em público o carinho que de fato tinham pelo time que defendiam.

Agora só falta boleiro mandar tatuar em lugar do corpo visível em transmissões de jogos pela TV o escudo do “novo time do coração”. Com a mesma tinta usada nas tatuagens da Déborah Secco, é claro. Mas, justiça se faça: essa conduta eivada de hipocrisia não foi invenção dos atletas endinheirados do meio do futebol. É apenas reflexo do comportamento “educado” da nossa sociedade como um todo. Marido que realmente ama a mulher demonstra esse sentimento no dia-a-dia... dentro do lar. Não precisa mandar à amada telemensagem em público, arrulhar promessas de amor em outdoors. Nem grafitar em local público os nomes dos pombinhos dentro de um coração. Ou precisa?

Sidnei Rodrigues - RG 10.347.093