O aumento da temperatura em Bauru, causado pelo crescimento urbano desordenado e o desmatamento, está produzindo um fenômeno nas chuvas na cidade. Algumas tempestades que vêm em direção ao município, ao chegar no limite da cidade bifurca, desviando-se de Bauru e volta a se juntar mais adiante. Em outras ocasiões, o calor provoca chuvas dentro da cidade, que não têm relação com nenhum fator meteorológico, como frentes frias.
A chuva que atingiu a cidade anteontem pela manhã, por exemplo, foi uma precipitação 100% bauruense. O radar do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) não tinha registrado nenhuma frente fria ou área de instabilidade até as 10h. Às 10h08 a chuva começou a se formar bem na área central da cidade, sem nenhuma outra precipitação em municípios vizinhos. Às 10h16 já haviam vários pontos azuis no radar. O evento vem sendo acompanhado pelo IPMet há quatro anos.
“Nós acompanhávamos as tempestades pelo radar. Ela chegava em Bauru e separava-se, voltando a se juntar mais para frente. Não sabíamos o que provocava isso”, conta o meteorologista José Carlos Figueiredo, doutor em agronomia. Esses desvios, custaram ao IPMet inúmeros avisos enviados à Defesa Civil alertando tempestades que acabaram não acontecendo. Outras vezes, o radar do IPMet captava precipitações na cidade, que não tinham relação com frentes frias, linhas de instabilidade ou de baixa pressão.
Segundo o meteorologista, apesar desse fenômeno se repetir em cidades de grande porte, em Bauru foi detectado há mais tempo, por conta da presença dos radares. “Estamos sempre acompanhando a movimentação, por isso percebemos esse fenômeno”, conta. Esses distúrbios permaneceram um mistério para os meteorologistas até 2005, quando o diretor do IPMet, Roberto Vicente Calheiros, participou de um evento na Coréia e conheceu o cientista americano Marshall Shefherd, meteorologista da Agência Espacial Americana (Nasa) e membro do Programa Internacional de Medidas de Precipitação.
A palestra de Shefherd era justamente sobre o fenômeno observado em Bauru. Calheiros mostrou ao cientista os dados obtidos em Campinas em uma pesquisa realizada por Figueiredo, que chegou aos mesmos resultados dos estudos de Shefherd.
A partir de 2005, os meteorologistas de Bauru passaram a identificar os eventos na cidade. Para reunir mais dados e verificar as condições exatas do fenômeno, foi firmada uma parceria entre a Nasa e o IPMet.
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Internacional
O resultado dos estudos da parceira entre o IPMet e a Nasa serão divulgados no estudo “Climatologias de tempestades nas grandes metrópoles de São Paulo” - título ainda provisório - que será apresentado num evento em agosto, na Austrália. O segundo estudo, “Bifurcação das trajetórias das tempestades no município de Bauru”, título também provisório, será divulgado na Áustria por José Carlos Figueiredo, meteorologista, Roberto Vicente Calheiros, diretor do IPMet, e Marshall Sefherd, pesquisador norte-americano.