O Irã quer construir usinas nucleares para produzir energia nuclear para fins pacíficos! Ora, produzir ou utilizar energia nuclear, qualquer que seja a origem, pode não ter fins pacíficos.
Consta que o Japão, antes do final da II Guerra Mundial, desenvolvia uma arma denominada “Raio da Morte”, que seria capaz de destruir aeronaves e navios a quilômetros de distância. Hoje, armas semelhantes são utilizadas em guerras convencionais.
Seguindo essa ótica, todos estão autorizados a procurar “pêlos em casca de ovo”, principalmente as nações hegemônicas, como é o caso dos EUA e de seus aliados mais próximos, membros do G-8, baluartes da globalização de uso externo, por meio do neoliberalismo de mercado.
Toda vez que um país não-subordinado aos seus interesses tenta iniciar-se na alquimia nuclear, lá estão eles para impor empecilhos e exigir vistorias do que não mostram para ninguém. A regra é simples: Quem não se submete é uma ameaça!
Mas energia não é um fator de desenvolvimento? A auto-suficiência energética não é um fator de soberania (vide imbróglio Bolívia-Brasil-Venezuela)? Bem, ao que consta o Irã não tem potencial hídrico ou eólico (talvez, apenas, solar) capaz de gerar energia com o mesmo potencial e eficiência de um sistema termonuclear. Em situação semelhante, vários países optaram por esse modelo sem grandes problemas ou interferências externas.
A opção iraniana sob esse enfoque é, portanto, estrategicamente coerente, ainda mais quando fica cada vez mais claro que o petróleo não é eterno, e que, findas as reservas, a maioria das nações do Oriente Médio corre o risco de retornar à condição paupérrima do início do século 20! A preocupação, em circunstâncias normais, seria se a tecnologia adotada pelo Irã é ambientalmente segura ou não; mas a preocupação dos EUA não é essa: é com o eventual uso militar dessa tecnologia contra suas pretensões. Além disso, os EUA não “engolem” o Irã desde a Revolução Islâmica, em 1979.
Com medo da expansão do fundamentalismo religioso no Oriente Médio, não tiveram o menor escrúpulo em financiar Saddam Hussein na Guerra Irã-Iraque, fechando os olhos para o uso de armas químicas e para os massacres de curdos promovidos, paralelamente, pelo ex-ditador, que só agora estão sendo investigados. Com isso, o que era um conflito estratégico foi transformado em conflito religioso!
Para piorar, o Irã é um dos maiores produtores e exportadores de petróleo do mundo: seu comportamento não-alinhado - imprevisível - pode elevar o preço do barril bem acima dos já estratosféricos US$ 70! Se analisarmos com vagar, até que os EUA não estão sendo tão radicais assim, tanto que já disseram que se o Irã quiser produzir bombas atômicas sem sua permissão, poderá receber algumas, de graça, por via aérea...
Será que a melhoria das condições produtivas e de vida no Irã, e em outros países semelhantes, não reduziria a quantidade de pessoas interessadas em se sacrificar voluntariamente, e a outros, sem aviso? Qual é a alternativa proposta pelos EUA e seus aliados para contornar essa obstinação fundamentalista, sem ferir crenças e culturas, e sem estar do lado opressor, como fez na época do Xá Rehza Pahlevi: submissão incondicional ao neoliberalismo de mercado?
É óbvio que o medo dos EUA é de que eles próprios venham a sofrer ameaça nuclear semelhante a que representam, soberanos entre as nações. E não importa que ela venha por meio de mísseis de médio ou longo alcance, movidos a combustível sólido ou líquido, ou por um solitário homem-bomba, movido por suas crenças religiosas.
O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é escritor, engenheiro e professor universitário na Unisantos e na Unisanta