08 de julho de 2026
Nacional

Tudo ganha vida

Por Da Redação | Com Reuters e Agência Estado
| Tempo de leitura: 4 min

“Uma Noite no Museu” é uma produção dirigida para o público infanto-juvenil. A informação é importante para sabermos, de antemão, o que podemos esperar do filme, que estréia hoje nos cinemas de Bauru.

O diretor Shawn Levy “cometeu” comédias como “A Pantera Cor-De-Rosa”, “Recém-Casados” e “Doze é Demais”) nos últimos anos, o que seria suficiente para pensar três vezes antes de assistir a um novo filme dele. Mas nessa adaptação do livro ilustrado de Milan Trenc para as telas, ele entrega uma aventura divertida - talvez culpa do produtor Chris Columbus (de “Esqueceram de Mim” e dos dois primeiros filmes da saga de Harry Potter).

Segundo os cânones atuais, um produto desse tipo deve ter diversão, muita correria, algum suspense, pouca complicação e um fundo edificante. “Uma Noite no Museu” tem tudo isso. Todas as variáveis da fórmula se encaixam em seus lugares.

O protagonista da história é Larry Daley (Ben Stiller), sujeito que tem vários problemas na vida. Um deles é que não consegue se fixar num emprego. O outro, decorrente deste, é que fica mal aos olhos do filho (Jake Cherry), a quem vê de vez em quando porque está separado da esposa. Pior: o novo marido de sua ex-mulher é um protótipo daquilo que na sociedade americana se chama de vencedor.

Portanto, arranjar e depois segurar o emprego de vigia noturno no Museu de História Natural de Nova York é, para Larry, não apenas uma questão de sobrevivência material, mas principalmente psicológica.

O filme tem alguns trunfos interessantes, como a engraçada trinca de veteranos, Mickey Rooney, Dick van Dyke e Bill Cobbs, que fazem os vigias noturnos a serem substituídos por Larry. Outro ponto forte é o sempre engraçado Robin Williams no papel de uma estátua do presidente Theodore Roosevelt, aquele do Canal do Panamá, ideólogo de uma política externa agressiva, quase à la Bush, e partidário daquilo que ele mesmo chamou de diplomacia do “big stick”, o popular cacetão.

Claro, o Roosevelt do museu que, como seus colegas empalhados, ganha vida durante a noite, não exibirá no filme essa desagradável truculência do personagem real. Ele é todo sabedoria e compaixão. Sofre por ser apaixonado por uma índia de cera e não saber como abordá-la e será o guru de Larry quando este fraquejar.

De resto, o museu inteiro se movimenta durante a noite. Se é nos museus que a história da Terra e da humanidade permanece viva... por que não ganhar vida literalmente? Esqueletos de dinossauros saem para brincar, caubóis combatem legiões de romanos, hunos brigam com mongóis e assim a história universal ganha vida diante dos olhos atônitos de Larry, numa espécie de “Jumanji” em maior escala.

O problema do filme é como se segurar durante quase duas horas na base de uma boa sacada só. Daí o fato de surgirem várias “barrigas” para preencher o tempo ocioso. Algumas dessas histórias paralelas até que não são más, como, por exemplo, quando parte dos habitantes do museu decide conferir como é a vida “lá fora”.

Mas, no geral, o tempo é preenchido com correrias dentro do museu, e depois da admiração inicial que o espectador possa sentir diante dos efeitos especiais bem realizados, estes tendem a cansar, pela simples repetição. Outra parte do tempo é gasta no alinhavo melodramático que supostamente dá ao filme seu caráter edificante - a reabilitação do pai diante do filho.

No caso mais agudo de Larry, ele tende a ser uma espécie de escória da sociedade americana, aquele tipo de cara que não encontra emprego, e quando encontra, não consegue segurá-lo. Pouco confiável socialmente, não tem credibilidade para ser um pai. Precisa então provar que não é nada disso, domando as aparentemente incontroláveis figuras do museu. E assim o filme ganha seu aval “humanista” e pode se orgulhar de contribuir para algum tipo de mensagem positiva, além de proporcionar honesta diversão.

Enfim, mesmo no mais humilde dos filmes se pode aprender algo sobre o modo de funcionamento mental da sociedade que o produziu. Mas, claro, o que interessa mesmo é se a molecada vai se divertir ou não. E a resposta vem da bilheteria: nos Estados Unidos, “Uma Noite no Museu” arrebentou a boca do balão - há três semanas em cartaz, continua na ponta da tabela tendo já arrecadado mais de US$ 160 milhões. É o que conta.