09 de julho de 2026
Articulistas

A revolução das massas


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A maior revista semanal do mundo, a Time, todos os anos elege uma personalidade mundial para a sua reportagem de capa. No final de 2006 a escolhida foi “Você”. Na capa está a foto de um laptop com um “You” na telinha. Ao pé, a explicação: “Sim, você. Você é quem controla a era da informática. Bem-vindo ao seu mundo”. Vem a propósito dessa discussão entre “invasão de privacidade” e “censura” que dominou a imprensa em razão do Judiciário ter proibido a divulgação do vídeo de Daniela Cicarelli. Esses fatos fazem parte da extraordinária revolução a que estamos assistindo, semelhantes à desencadeada em 1448, quando Johannes Gutenberg inventou a imprensa de tipos móveis.

Outra revista de igual importância, a britânica The Economist, capitalista até a medula, acaba de admitir o fim da comunicação concentrada no poder econômico, com o surgimento de um novo conglomerado da mídia, composto por redes de cidadãos dispostos a ser mais que simples consumidores de informação. Nos novos tempos, prevê o texto, “ao invés de um punhado de gigantes ultra-capitalizados da mídia, disputando entre si, haverá grupos e indivíduos, competindo, ou, mais freqüentemente, colaborando uns com os outros” com informações.

A YouTube tem 100 milhões de clips vistos por dia. A MTV, canal onde Daniela atua, recebeu mais de 50 mil mensagens de protestos porque a sua contratada recorreu ao Judiciário para retirar do site as cenas de sexo na praia. Entrou areia... Cicarelli teve que declarar que tudo foi feito à conta exclusiva do namorado. Mentiu. YouTube permite que seus usuários carreguem, assistam e compartilhem vídeos em formato digital, segundo a Wikipedia, a enciclopédia da mãe-joana onde cada um pode redigir o significado que quiser do verbete que preferir. A YouTube acaba de ser comprado pela Google, que pagou US$ l,65 bilhão a dois garotos que a inventaram. O juiz mandou retirar o site da internet, num primeiro momento, e depois só o vídeo. As cenas de amor na água e na areia continuaram sendo vistas nos correlatos MySpace, Kibeloco e PornoTube. A internet não tem fronteiras e nem amarras. Nenhuma lei pode alcançá-la, mesmo que tivesse poderes extraterritoriais. Torna-se a cada dia, o instrumento mais democrático de comunicação já inventado. Na internet, hoje, podemos ler inteligentes opiniões, descobertas interessantes, abobrinhas e cretinices em blogs e orkuts; ouvir rádios e ver tevês virtuais, onde imperam a maior liberdade de expressão e criação. Como diz a Time, o site de vídeos foi a melhor invenção do ano, entre outros motivos, por “criar uma nova forma para milhares de pessoas se entreterem, se educarem e se chocarem de uma maneira nunca vista”. Claro que navegam também os ignorantes, narcisistas, tarados de todo gênero, loucos e complexados. Estes não vão comprometer o destino manifesto da invenção, que é o de “construir um novo tipo de entendimento universal”, como observou o jornalista Sérgio Augusto em recente texto no Estadão. Esse entendimento, ele diz, não mais será intermediado exclusivamente por políticos, manda-chuvas e sabichões, mas por pessoas comuns: de cidadão para cidadão.

Essa aparente anarquização dos preceitos de proteção à intimidade e de direitos autorais vai forçar a imprensa, os estúdios de cinema e de gravação a rever certos conceitos e estabelecer novos planos de sobrevivência. Inclusive a tevê vai ter que se reinventar. The Economist profetiza que o próximo grande passo será a integração de dados proporcionada pela adoção de um vocabulário comum, uma expressão semântica universal que facilite ainda mais a troca de idéias e de informações no plano mundial. Será a democratização do direito de informar e de ser informado, no mesmo pé, sem a intermediação de editores com o dever de ser fiel aos interesses de quem paga seus salários. Artistas sem espaço, iniciativas de educação popular, ocupação urbana, teologias libertadores, pontos de cultura que não encontram lugar no jornalismo tradicional já têm vez e voz. Vai diminuir a influência do editor, aquele porteiro (gatekeeper) que diz o que entra ou fica de fora do jornal, e decide sempre pelos escândalos institucionais e episódios de violência, porque assim deve querer o mercado, na sua cabeça. Agora somos todos editores. Decidiremos sobre o que ler, ver e expressar como leitores e telespectadores críticos.

Ainda é cedo para dizer que essa emergente “comunicação compartilhada” assegurará transformação social de longo prazo. Depende da capacidade de todos nós, transformados em atores, de desempenhar distintos projetos sociais com a ajuda desse fabuloso (e factível) novo paradigma.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC