O suposto alívio temporário em torno das próprias frustrações pode ser um dos fatores que talvez explique o sucesso do Orkut, site internacional de relacionamentos que atrai pessoas de diferentes idades. O sistema oferece espaço para comunidades, fóruns de discussão, exibição de fotografias, gostos e preferências. Permite ainda que seus usuários acessem a página de outras pessoas e “espiem” seus recados sem serem reconhecidos. Todo este “pacote” de vantagens parece ser irresistível para muitos. Afinal de contas, é difícil não dar uma “olhadinha” na vida, quer dizer, na página alheia.
É o caso da universitária Bruna Oliveira, 21 anos. Assim como milhares de pessoas, ela não consegue passar mais de uma semana sem acessar sua página no Orkut. Por meio do programa, conta, participa de comunidades e se comunica com amigos que moram longe. Apesar de ter fotos suas, do namorado e da turma expostos no site, Bruna costuma apagar seus recados virtuais. “Faço isto porque já tive vários problemas”, diz.
Nada impede, porém, que Bruna espie a página de outros internautas. “Se a outra pessoa não apaga, é difícil não ler”, revela. Segundo ela, a privacidade está se tornando cada vez mais rara atualmente. “Vivemos em um mundo de tecnologia, Orkut, celular... é muito fácil encontrar uma pessoa e saber onde ela está”, opina.
O farmacêutico Regis Fernando Lacerda Batista, 27 anos, tem opinião semelhante a de Bruna e destaca que a maioria das pessoas é, de alguma forma, vigiada. E além de câmeras, celulares, Internet, o monitoramento está presente nos relacionamentos afetivos, familiares e entre amigos. “Me incomoda quando ‘pegam no meu pé’ ou ficam vigiando minha vida, até porque não faço isso”, diz.
Regis também possui uma página no Orkut. Apesar de conferi-la quase todos os dias, ele evita se expor muito. Não possui fotografias e, após ler e responder, apaga seus recados. “Faço isso para preservar minha privacidade. Por meio dos scraps, não é difícil descobrir, por exemplo, em que barzinho a pessoa irá”, comenta.
Para a psicóloga clínica e terapeuta familiar Júlia Verónica Rodriguez Hernandez, participar do Orkut implica assumir uma espécie de transparência, concordar em se expor numa vitrine virtual, onde a pessoa pode ser vista tanto por conhecidos quanto por desconhecidas e também por pessoas que não bem-vindas. Tudo, porém, faz parte do sistema.
“E ele subsiste porque, de algum modo, as pessoas toleram esta invasão e as regras do jogo”, destaca. Em relação a apagar ou não os recados virtuais, a psicóloga aponta que a decisão é estritamente pessoal. “O indivíduo precisa saber realmente o que deseja e qual é sua prioridade: usar este sistema para interagir com outras pessoas e correr o risco de ser ‘bisbilhotado’; utilizá-lo com restrições; ou até evitar o seu uso”, opina.