08 de julho de 2026
JC Criança

O menino e a tartaruga

Clarissa Castiglione
| Tempo de leitura: 4 min

Imagine estudar em uma escola onde alunos e bichinhos fazem parte da mesma sala de aula? Pois essa foi a realidade de 27 crianças, todas alunas da 1.ª série da Escola Estadual Henrique Bertolucci, no Jardim Noroeste, em Bauru. A professora responsável pelas aulas dessa garotada foi Simone Fátima Costa Ribeiro, que diante de uma dificuldade decidiu buscar ajuda extracurricular na natureza.

“Na turma havia um aluno especial, o Jeferson, que por conta de sua deficiência visual movimenta-se em cadeira de rodas. Inseri-lo nas atividades de sala de aula foi sempre um desafio, já que ele se recusava a falar com os demais alunos”, explica a professora.

Ela conta que o projeto “Uma tartaruga muito especial” teve início no dia em que Jeferson foi para a aula com o pé enfaixado, despertando o interesse das demais crianças sobre o “acidente”. “Timidamente, ele começou a relatar que havia se machucado enquanto brincava com sua tartaruga de estimação”, relata Simone.

A classe toda demonstrou enorme interesse pela situação e alguns alunos indignaram-se pelo fato da tartaruga, apesar de ser um animal de estimação, não possuir um nome. “A solução encontrada por eles foi fazer uma eleição para a escolha de um nome, estimulados, provavelmente, pela proximidade das eleições presidenciais brasileira”, relembra a professora.

No dia seguinte, Simone quis saber dos alunos o que já conheciam sobre tartarugas. “Das muitas pesquisas sobre tartarugas que a classe fez, surgiu a idéia de gravar um CD, com o objetivo de ajudar Jeferson a ouvir leituras sobre a vida das tartarugas”, diz Simone.

O projeto “Uma tartaruga muito especial” teve momentos de escrita, leitura, atividades individuais, em duplas e coletivas. Durante a reunião de pais, a professora expôs a proposta da gravação do CD e desenvolvimento do projeto. A idéia foi aceita e os familiares comprometeram-se em apoiar as crianças no levantamento de informações sobre o tema.

No dia seguinte à reunião, um colega de Jeferson, o aluno Thiago, trouxe para sala de aula Pâmela, uma tartaruga que pertencia a sua avó, possibilitando a produção de um texto, criação em dupla de diálogos e o teatrinho. Em seguida, a aluna Giovanna pesquisou um texto sobre pratos exóticos feitos com tartaruga, que viabilizou atividades com receitas culinárias.

A partir daí, as aulas nunca mais foram as mesmas com a participação da garotada, que ficou empolgada com as novidades e com os novos saberes que no dia-a-dia iam adquirindo.

Outras leituras foram gravadas e ilustradas, como a fábula “A Lebre e a Tartaruga” e “Festa no Céu” (conto de Ana Maria Machado). O aluno Leandro trouxe para a sala de aula um texto bíblico, que serviu para atividades sobre características e hábitos dos animas e até a produção de um painel na porta da sala de aula chamado de “A arca de Noé”.

No último dia de gravação do CD, Jeferson trouxe Lilica, a famosa tartaruga que deu origem ao projeto, para todos conhecerem. “Junto com outros alunos, ele visitou todas as salas de aula da escola, apresentando o animal e expondo o que haviam estudado”, explica a professora.

A última etapa do projeto foi o lançamento do CD em dezembro do ano passado, com a presença de familiares, amigos, corpo discente e docente da escola. Depois das gravações feitas com gravador de fita cassete, o material foi dado a Edson José, repórter da Rádio Difusora Santa Cruz, de Santa Cruz do Rio Pardo, que providenciou a gravação para CD, que possuiu 21 gravações, entre poesias, histórias, charadas, piadinhas, conto e fábula.

____________________ Aprendizado

Com a ajuda da tartaruga Lilica e as atividades desenvolvidas com os colegas na sala de aula, Guilherme Rigoni, um dos alunos, conseguiu corrigir algumas falhas na fala. A mãe dele, Silmara Rigoni, diz que, depois do início das gravações das leituras, esse problema foi corrigido, fazendo até com que o menino não precisasse mais do auxílio da fonoaudióloga.

“A professora Simone fez um ótimo trabalho durante o ano, principalmente com a gravação do CD”, diz a mãe de Guilherme. Outra mudança de comportamento ocorreu com Jeferson, o dono de Lilica. “Seu comportamento mudou visivelmente com o início do projeto”, afirma, feliz, a professora Simone Fátima Costa Ribeiro.