São Paulo - A pressa na execução das obras da Linha 4 do Metrô, que deverá começar a operar no ano que vem, pode ter sido o fator determinante do acidente no buraco da futura Estação Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, cujas margens cederam anteontem. Segundo engenheiros ouvidos pela reportagem, que pediram para não ser identificados, os métodos usados na construção da linha de metrô são os mais avançados, porém em áreas frágeis, como as próximas de rios, a escavação deve ser precedida de análise do solo metro a metro, fazendo com que o trabalho avance vagarosamente.
O secretário de Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, reconheceu ontem que na última quinta-feira instrumentos de medição das obras do metrô em Pinheiros detectaram que o revestimento do túnel estava cedendo. O gerente de engenharia do metrô, Ricardo Leite, disse que o problema é comum nesse tipo de obra e que as equipes cravaram estacas para tentar estabilizar o túnel. Questionado se os procedimentos adotados foram os corretos, Portella disse que isso só poderá ser respondido após uma análise independente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) da Universidade de São Paulo (USP), que deve ser concluída em uma semana.
Ele afirmou que a responsabilidade pelo acidente não é do Estado, mas do Consórcio Via Amarela. “É importante destacar que o Metrô não está fazendo a obra e que a nossa única responsabilidade é de ser a contratante.”
O Consórcio Via Amarela culpou a chuva pelo desabamento. Em nota remetida à imprensa na tarde de ontem, o consórcio afirma que “as fortes chuvas das últimas semanas, que assolaram a Capital paulista com grande intensidade e duração, levam a indícios de que teriam causado uma reação anômala e inesperada no maciço de terra em que se encontra a obra, provocando o seu repentino colapso e conseqüente desmoronamento.”
]O consórcio é liderado pela Odebrecht, a maior construtora do País, e integrado também pela OAS, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez. De acordo com o gerente da construção da Linha 4, Marco Antonio Buoncompagno, as medições indicavam na tarde de ontem que o terreno estava estabilizado e o guindaste não apresentava risco de queda.
Segundo o geólogo da USP Cláudio Riccomini, a presença de uma extensa faixa de areia branca, frágil e não compactável no subsolo da cratera do Metrô teria sido preponderante no acidente. A areia, assim como a cobertura de 1 metro de argila, são materiais típicos de margem de rio e estariam no local antes de o rio Pinheiros ter sido retificado, a partir da década de 40.
A Linha 4 é construída por dois métodos, o New Austrian Tunneling Method (NATM), que usa explosivos, escavadeiras e jateamento de concreto, e o Tunnel Boring Machine - este batizado de tatuzão. Trata-se de uma máquina, espécie de fábrica ambulante, que perfura, retira a areia e escora as paredes com concreto, tudo ao mesmo tempo. Pelo NATM, a areia e as rochas não são retiradas, mas compactadas no mesmo lugar. Segundo o site do Metrô, as obras eram executadas predominantemente por este método.
O acidente, na avaliação dos técnicos, também não teria ocorrido de uma hora para a outra. De acordo com os engenheiros, seria impossível que os funcionários da estação não tenham percebido o solo ceder pouco a pouco. No entanto, dependendo da movimentação da terra, mesmo sabendo que a tragédia é anunciada, há pouco a fazer. Riccomini, especialista no subsolo da Capital, afirma que o Metrô tem os melhores profissionais de sondagem de solo.
Resgate
Os trabalhos de resgate seguiam ontem em ritmo lento. De cinco a dez pessoas que circulavam ou trabalhavam na região estão desaparecidas. Uma equipe com seis bombeiros, que escavava usando pás de mão, só conseguiu avançar 1,5 metro até a tarde de ontem. Para permitir a abertura de um buraco entre a área de deslizamento e o túnel, uma retroescavadeira retirava terra pela parte de cima. A cada ação da máquina, uma parte da terra do túnel cedia, o que atrasava o avanço - até para salvaguardar os soldados. Outro trabalho consistia na fixação do guindaste para o início da sua desmontagem.
Pela manhã de ontem, foram encontrados dois veículos nos escombros, um Gol e um Palio, a 35 metros de profundidade. Dois caminhões foram retirados, mas o trabalho teve de ser paralisado para estabilização do terreno e possível identificação de regiões com vítimas.
Os esforços se concentravam na busca de um microônibus da cooperativa Transcooper da linha 177-Y, que deveria estar a 20 metros de profundidade. O motorista, Reinaldo Leite, 44 anos, chegou a pedir socorro pelo rádio. Além dele, o cobrador Wescley da Silva e pelo menos duas pessoas, segundo testemunhas, estavam no lotação.